sábado, 25 de julho de 2009

UM FERIADO PARA COMEMORAR: A MEMÓRIA EM FORMA DE CALENDÁRIO

Nessa parte, analisamos mais um lugar de memória do movimento de 1930: a institucionalização do feriado de 26 de julho, em alusão à morte do ex-presidente João Pessoa. Focamos as práticas de comemorações cívicas ocorridas anualmente, quando se celebrava o mito. O recorte temporal que fizemos para essa análise, coincide com os marcos divisórios da chamada Era Vargas (1930-1945), tendo em vista que os entendemos emblemáticos, na média duração, no que concerne à produção e à socialização da memória histórica oficial do movimento de 1930.

A INSTITUCIONALIZAÇÃO DE UM FERIADO: A MARCA DA MEMÓRIA

A festa tem sempre uma função pedagógica e unificadora, reduzindo as diferenças existentes. (OLIVEIRA, 1989, p. 2, grifos nossos).

Sendo o calendário uma construção cultural, muito embora muitos povos tenham tomado a natureza como parâmetro para elaboração destas marcas do tempo, é uma forma do Homem se situar no mesmo, localizando acontecimentos, podendo julgá-los por critérios de anterioridade, posterioridade e simultaneidade. Como construção histórica, pois, sofre as interferências dos seres humanos e se adéqua a diversos interesses. Um exemplo, dentre tantos, é o calendário revolucionário francês, dando denominações aos meses de forma a rememorar a Revolução de 1789. A institucionalização de um feriado exemplifica essa busca de controle do tempo pelo Homem, uma vez que se constitui como um momento de suspensão do cotidiano em que se demarca algum evento especial. Há, portanto, uma pausa no ritmo diário do trabalho e da dinâmica do dia-a dia para a realização das comemorações.
A comemoração pretende exorcizar o esquecimento (LIPPI, 1989, p. 2), de modo que os organizadores das festas revolucionárias procuram, anualmente, afirmar a revolução, ensinando-a a quem não a conheceu diretamente. (OZOUF, 1988, p.219).
Durante o século XIX, houve uma explosão do espírito comemorativo. Foi a Revolução Francesa a dar esse exemplo? Mona Ozouf descreveu bem esta utilização da festa revolucionária a serviço da memória: “Todos os que fazem calendários de festas concordam com a necessidade de alimentar através da festa a recordação da revolução.” (apud LE GOFF, 1992, p.199).
A laicização das festas e do calendário facilita, em muitos países, a multiplicação das comemorações. Na França, o 14 de julho. Nos Estados Unidos, após a Guerra de Secessão, os estados do norte estabeleceram um dia comemorativo, festejado a partir de 30 de maio de 1868: “Se os revolucionários querem festas comemorando a revolução, a maré da comemoração é, sobretudo um apanágio dos conservadores e nacionalistas, para quem a memória é um objetivo e um instrumento de governo” (LE GOFF, 1992, p. 463).
A comemoração, segundo o citado historiador francês, apropria-se de suportes: moedas, medalhas e selos de correios multiplicam-se. A partir do século XIX, uma nova vaga de estatuária, uma nova civilização da inscrição (monumentos, placas de paredes, placas comemorativas nas casas de mortos ilustres) atinge as nações européias.
Analisando as tradições inventadas no século XIX, pela Terceira República Francesa, Hobsbawm (1984, p. 279), assinala três tipologias como consideravelmente importantes: os monumentos, a educação primária e as cerimônias públicas.
Os conteúdos escolares constituintes dos manuais tinham um cunho acintosamente nacionalista e republicano, estando a serviço da legitimação ideológica da Terceira República, e objetivavam, “transformar não só camponeses em franceses, mas todos os franceses em bons republicanos”. (HOBSBAWM, 1984, p. 279).
No que tange às cerimônias públicas, parece ser o Dia da Bastilha o mais festejado, reunindo manifestações oficiais e não oficiais, “confirmando anualmente a condição de França como nação de 1789, na qual todo homem, mulher e criança franceses poderiam tomar parte”. (HOBSBAWM, 1984, p. 279).
No Brasil, as festas públicas, misturando atributos cívicos e religiosos, remetem ao período colonial, tendo continuidade após a independência, em outro contexto histórico, daí, algumas características diferentes do período antecedente. Nas palavras de Souza (1999, p. 209),

As cidades e suas câmaras, arranjadas com a igreja, comemoravam de tempos em tempos, e por ordem do Estado, o nascimento dos herdeiros, os casamentos dos infantes, a aclamação do soberano, os batizados das crianças reais, as exéquias dos príncipes; daí advinha todo um novo ciclo, ao inaugurar-se um novo reinado.

Durante o império, festa era o que não faltava. O protagonista, evidentemente, não poderia ser outro, senão o imperador. Por onde andasse, em carne e osso, ou mesmo presente por meio do retrato, reunia uma população esbanjando comemoração. Anteriormente à independência, quando ainda era príncipe, D. Pedro empreendeu viagens em busca de adesões ao projeto de separação do Brasil. Assim como, posteriormente, ocorreria com a aclamação e coroação do imperador do Brasil, tudo era ritualizado, cerimonializado, em demonstração de uma nação que caminhava no rumo da “civilização”. Concordamos com Souza (1999, p. 251), quando destaca que

Esses signos, símbolos, vivas, proclamações, imagens e metáforas, no seu conjunto e volume, entrecruzando-se aqui e acolá no universo social, nas celebrações públicas e oficiais, instauravam uma dada noção de Brasil, mediada pela monarquia constitucional e pelo civismo cobrado de cada um. Nesse sentido, tantos adornos, ritos, signos da monarquia, ajudavam a construir uma idéia e uma imagem da nação brasileira, concorrendo para seu eficaz reconhecimento. E, ao mesmo tempo, este Estado forte que assegurava a união territorial norteava-se pela monarquia, banindo o advento da república, prima da anarquia.

A festa cívica tem um caráter pedagógico. Ela é organizada no sentido de dar lições, de inculcar um ideário que legitime um determinado regime político. No caso do Império brasileiro, as festas funcionavam com o objetivo de comemorar a nação que, na visão das elites e do Estado, estava no rumo do “progresso” e da “civilização”, conforme rezava a cartilha de modelo eurocêntrico. Era preciso, entretanto, aprender as “tradições nacionais”, buscando, no passado, as origens dessa nação “predestinada” que caminharia para o futuro, a realizar-se a cabo do Estado monárquico, garantidor da unidade territorial, diferentemente das repúblicas latino-americanas, que teriam proporcionado o esfacelamento político-territorial e a anarquia.
Nesse particular, cumpre fazermos referências às datas comemorativas nacionais, algumas das quais, ainda hoje, bastante festejadas no cotidiano escolar da Educação Básica. Entre 1820 e 1830, o Estado lançou os marcos temporais da nação brasileira, autônoma e regida por constituição própria. Datas como o 7 de setembro (grito do Ipiranga), o 9 de janeiro (Dia do Fico), o 25 de março (outorga da Constituição), o 3 de maio (abertura da Assembléia Constituinte) e o 12 de outubro (aclamação de D. Pedro I e oficialização do império), “espelhariam a marcha da civilização brasileira e serviriam à sua própria celebração.” (SOUZA, 1999, p. 253).
Com a implantação do regime republicano, contudo, as apropriações dos passados mudam, com seus acontecimentos e “heróis”, escolhidos de modo a legitimarem o novo regime político. Acontecimentos como a Inconfidência Mineira, a Revolução de 1817, os movimentos de 1824 e 1848, ganharam destaque nos currículos e passaram a ser disseminados pelos livros didáticos. Tiradentes passava a ser o “herói” que vinha dar legitimidade aos republicanos de 1889. A idéia era buscar no passado “heróis” e acontecimentos que demonstrassem a valorização da República como regime ideal, desde os tempos coloniais.
Com base nas possibilidades analíticas oferecidas por estes exemplos, passemos às comemorações do aniversário de morte de João Pessoa. Inicialmente, faz-se importante recorrermos ao projeto de lei que alterou o calendário da Paraíba, instituindo o 26 de julho como feriado estadual, o ato instituinte:

Projecto Nº 1- A Assembléia Legislativa do Estado da Parahyba, Resolve:- Art. 1º- Considera-se feriado estadual o dia vinte e seis de julho, em homenagem ao inolvidável presidente João Pessoa. Art 2º- Revogam-se as disposições em contrário. Assembléia Legislativa da Parahyba, 12 de agosto de 1930. (a)- Argemiro de Figueiredo. (Livro de Atas da Assembléia Legislativa da Paraíba).

Em sessão legislativa do dia anterior à apresentação desse projeto, os deputados haviam votado e aprovado um minuto de silêncio em homenagem à memória de João Pessoa. No dia seguinte, era apresentado o primeiro de tantos outros projetos que criavam lugares de memória do presidente morto. Como ocorreria em setembro de 1930, com a apresentação do projeto que propunha a mudança do nome da capital, o autor da propositura que alterava o calendário cívico da Paraíba, foi o deputado campinense Argemiro de Figueiredo, cujo perfil político já fizemos notar no segundo capítulo desse trabalho. No dia 27 de agosto de 1930, ocorrera a primeira discussão do projeto. No dia seguinte, o deputado Generino Maciel recomenda que o mesmo seja enviado à Comissão de Justiça, sendo aprovado, por unanimidade dos votos, na sessão do dia 3 de setembro, e sancionado pelo presidente Álvaro de Carvalho, como Lei nº 702, de 9 de setembro de 1930.
Foi, sem sombra de dúvida, a primeira intervenção oficial na construção da memória de João Pessoa e da “Revolução de 30”, demonstrando que, como fizeram os franceses, “a alteração do calendário pode ser tomada como um exemplo extremo de que controlar o tempo se torna essencial ao poder”. (OLIVEIRA, 1989, p. 2). A partir de então, essa data, expressão de lugar de memória, se transformaria, anualmente, em “festa capaz de mobilizar uma cidade ou parte dela, interrompendo o funcionamento das instituições públicas, a rotina de trabalho, alterando o fluxo e o movimento das ruas...” (SOUZA, 1999, p. 214-215).
Tomando por base a institucionalização do feriado de 26 de julho, buscamos compreender a criação e a apropriação feitas por parte do Estado, desse lugar de memória, dando visibilidade maior, já que é a proposta desse capítulo, ao papel das escolas paraibanas e às práticas desenvolvidas no dia do aniversário de morte do ex-presidente João Pessoa.
Partindo da idéia de um Estado Nacional centralizado, após 1930, cuja intervenção no ensino de História se fazia notar no currículo, que primava pelo realce aos vultos da Pátria, colocam-se alguns questionamentos: Como foi possível celebrar e comemorar um “herói” paraibano? Que práticas culturais-simbólicas compunham a programação dessas festas cívicas? Qual o papel da escola nesse universo simbólico da comemoração?

UM HERÓI PARAIBANO COMO HERÓI NACIONAL

Apresentamos algumas indagações anteriormente, às quais buscaremos responder a seguir. Comecemos, então, pela primeira delas: João Pessoa, um “herói” regional ou nacional?
A historiadora Bittencourt (2006) discute a construção da memória histórica no âmbito da educação escolar, porém, fora da sala de aula, mediante práticas educacionais comemorativas de eventos e de “heróis nacionais”, no decorrer das primeiras décadas do século XX. Conforme observa a autora,

As atividades programadas para a escola oficial compunham-se de comemorações relacionadas às “datas nacionais”, de rituais para hasteamento da bandeira nacional e hinos pátrios, além de uma série de outras festividades que foram englobadas sob o título de “cívicas”, compondo com as demais disciplinas o cotidiano escolar. Acompanhando o cuidado com que as autoridades educacionais organizaram e fiscalizaram tais práticas escolares e seguindo o conteúdo das denominadas “festas cívicas”, é possível verificar que o ensino de História não era conteúdo exclusivo da ação dos professores em sala de aula. Além da “história da pátria” ser tema preferencial de livros de leitura e das músicas escolares, havia outros recursos de comunicação, com rituais e símbolos construídos para a institucionalização de uma memória nacional. (BITTENCOURT, 2006, p.44).

Desde que a História se constituiu enquanto disciplina escolar, no Brasil, no século XIX, a questão da identidade nacional conferiu-lhe a missão de auxiliar o projeto nacionalista, primeiramente, levado a cabo pelo Estado Imperial e as elites que lhe davam sustentação, e, depois, pelo Estado republicano, com o suporte de outros grupos.
Pensando numa longa duração, podemos considerar a permanência, na História do Ensino de História, do modelo de produção do conhecimento histórico baseado no IHGB, e do seu modelo de transmissão, no Colégio Pedro II. Estes referenciais têm feito parte da consciência histórica, em uma determinada época, e ainda o fazem, especialmente do senso comum, perpassando a idéia de “ciência do passado”, “chata” e “cansativa”, pois obriga os alunos a decorarem os nomes e feitos dos “heróis nacionais” com suas respectivas datas, em aulas baseadas nos métodos da memorização mecânica e em avaliações tradicionais, nas quais os alunos devem repetir as respostas, oralmente ou por escrito, tais quais estão postas no livro didático. Na concepção de Stephanou (1998, p.16), com esse modelo de História factual, talvez os alunos não memorizem a médio/longo prazo os nomes, datas, feitos épicos e narrativas, entretanto, se consegue marcar, indelevelmente, a concepção de História dos educandos. Calissi (2004), fazendo uma historicização do livro didático no Brasil, desde os anos de 1930, percebe que a ruptura com esse projeto de História Política tradicional ocorreu no final do século XX, notadamente, no final dos anos de 1980, no contexto da chamada redemocratização brasileira, pós-regime militar.
Essas elaborações teóricas nos levam a problematizar essa longa duração. Por que a História Política tradicional, factual e linear, consciente e elitista, masculina e cristã, eurocêntrica e patriótica, tem permanecido nos currículos escolares?
Para efeito de análise, tentaremos vislumbrar algumas respostas no contexto histórico da chamada Era Vargas, levando em consideração o recorte temporal de nosso trabalho.
Nacionalismo e pensamento autoritário conjugam-se como a tônica desse período. Na visão de Abud (1998),

A concepção de realidade e de sociedade, que originava do nacionalismo e do anti-liberalismo, levava à responsabilização do Estado pela formação da nacionalidade e pela direção do povo. Este era considerado como “massa” que deveria ser orientada a seguir as elites, verdadeiro motor das transformações pelas quais o Brasil deveria passar para chegar ao desenvolvimento. (Grifos nossos).

O ensino de História estava, então, ideologicamente, a serviço do projeto de construção da identidade nacional, levado a efeito pelo Estado, em uma nova temporalidade. Daí os programas privilegiarem conteúdos tradicionais, com bastante ênfase na valorização da colonização portuguesa. Mas qual a relação existente entre o projeto nacionalista-autoritário varguista e o estudo dos “heróis” portugueses coloniais? A justificativa para o destaque dado à administração colonial portuguesa pode ser encontrada na idéia de continuidade histórica. O Estado Nacional Brasileiro, sob o comando de Getúlio Vargas, se colocava como continuador do projeto de construção da nação brasileira rumo ao “progresso” e ao “desenvolvimento”, cujas origens podem ser encontradas na colonização, pois teriam os portugueses propiciado a unidade territorial dessa nação “predestinada”. (ABUD, 1998).
Dessa forma, infere-se que o ensino de História, nesse período, vinculava-se à necessidade de formar o cidadão ideal para “ajudar” o Estado centralizado e as elites nessa missão teleológica. Um dos objetivos desse ensino era, justamente, construir o sentimento de brasilidade, neutralizando o poder das oligarquias regionais, sentimento esse, formado a partir da unidade territorial-administrativa e cultural.
Devemos destacar, portanto, que a apropriação que se faz dos passados, pelo presente histórico, deve ser entendida no bojo dos jogos de interesses e questões do referido presente. As escolhas das “datas nacionais” a serem comemoradas, e os “heróis” da “fundação da nação” a serem lembrados, dependem de como possam legitimar o regime político vigente. Um exemplo disso são as tradições inventadas pelos intelectuais republicanos no início do regime, que buscavam, no passado colonial, eventos e “heróis” republicanos como forma de construir, no imaginário, a idéia de nação predestinadamente republicana, onde “a monarquia deveria ser entendida como uma anomalia que se fez necessário apenas temporária e circunstancialmente na história nacional”. (BITTENCOURT, 1990, p. 177).
Os intelectuais republicanos que colocavam a “independência” como marco inaugural da “nação brasileira”, secundarizavam o papel de D. Pedro I. Rocha Pombo, por exemplo, atribuiu o papel de “fundador da Pátria” a José Bonifácio. (BITTENCOURT, 1990, p. 178). Afrânio Peixoto, ao se referir à Casa de Bragança, dá ênfase a D. João, enquanto Osório Duque Estrada coloca D. Pedro I no rol dos “homens ilustres que criaram a nação”, entretanto, seu nome aparece nos livros didáticos apenas em uma nota de rodapé. (BITTENCOURT, 1990, p. 179).
Durante a Era Vargas, ocorreram duas reformas educacionais, a primeira em 1931, com Francisco de Campos no Ministério da Educação e Saúde, e a segunda, em 1942, sob a gestão de Gustavo Capanema. O ponto central dessas reformas consistia nas articulações entre a educação e a nacionalização, de forma a centralizar os programas de ensino. Entretanto, em que pese a força oficial do projeto de reformas, existia um contra-discurso, demonstrando a natureza conflituosa do referido projeto. Como exemplo, podemos lembrar as críticas feitas pelo grupo do Manifesto dos Pioneiros de 1932, liderado por Fernando de Azevedo, que assumia postura contrária às medidas centralizadoras da reforma de 1931 e defendia um modelo educacional mais regionalizado, com base nos pressupostos da escola estadunidense.
A pretensão homogeneizante da educação, nos anos 1930/40, visava, mais do que nunca, permitir a ocultação das divisões sociais e das diferenças, de um modo geral, inculcando nas “massas” a idéia de serem dirigidas pelas elites, assim como a valorização da “democracia racial” e um combate àquilo que era considerado divisionismo: os regionalismos e a luta de classes.
Com o Estado Nacional Brasileiro no pós-1930, a centralização não se dá apenas no âmbito político e socioeconômico, mas também no cultural. No setor educacional, a criação do Ministério da Educação é a maior evidência do centralismo estatal no ensino. Os programas e orientações metodológicas são pensados por comissões de intelectuais ligados ao aparelho estatal e enviados de cima para baixo, para as escolas, públicas e privadas, de todo o Brasil. (ABUD, 1998, p.3).
A partir de 1937, com a decretação do Estado Novo, o nacionalismo autoritário ganharia maior vigor. Almeida (1998) reconhece, no paradigma pedagógico do Estado Novo, uma trilogia fascista: religião, pátria e família. O discurso oficial utilizaria, com bastante veemência, o conceito de “ordem” para se contrapor ao de “desordem”, o primeiro, identificado com os pressupostos ideológicos do regime político vigente, enquanto o segundo, era representado como enfeixando as ideologias opostas aos cânones do nacionalismo e do catolicismo.
A instituição escolar atuava como aparelho ideológico, reproduzindo o modelo de sociedade desigual, de nacionalismo e de autoritarismo, como “bom” e “desejável”. O papel da educação, nesse sentido, era notado pelo Departamento de Educação, por meio das palavras de Nilo Pereira: “o sucesso de nosso regime depende do systema de educação imposto e controlado pelo Estado. Fora dahi, seria perder tempo, palavras e dinheiro.” (ALMEIDA, 1998). A educação, como “solução” dos problemas nacionais, já estava posta na Primeira República, mas no contexto do liberalismo de influência francesa. Com o Estado Novo, a continuidade da idéia reveste-se de uma outra fundamentação, e ocorre em um outro contexto histórico. Os princípios rousseaunianos da Primeira República são substituídos, no âmbito do discurso oficial, pelas idéias autoritárias do nazifascismo.
Em 1934, o Ministro da Ciência, Educação e Formação do Povo, da Alemanha, formulou o paradigma pedagógico nazista, pautado, dentre outros, pelos seguintes princípios: a) alimentar o imaginário de repulsa aos regimes democráticos e parlamentares; b) veicular valores contra o ideário comunista e sindicalista; c) disseminar a ideologia racista; d) instrumentalizar o anti-semitismo; e) reinterpretar a história alemã, cultuando os heróis nacionais; f) exacerbar o nacionalismo; e, g) apresentar o nacional- socialismo como único regime capaz de extinguir a luta de classes (paz entre operário e patrão). (ALMEIDA, 1998).
Na Itália, a reforma empreendida pelo ministro Giovanni Gentile (1932) definia, ainda, a obrigatoriedade do ensino católico nas escolas, como forma de disseminar a “religião da nação”, e exigia a fidelidade dos professores ao regime fascista.
Como já fizemos notar em outros momentos desse texto, a educação, durante a Era Vargas, se enquadrava no discurso da nacionalidade. Alguns elementos, parte integrante do cotidiano e das práticas educacionais, seguiam os princípios nazi-fascistas. Por exemplo: o uso da imagem como formadora de opinião e o emprego de mensagens claras dando importância ao uso da palavra para que a doutrinação se fizesse por meio da persuasão.
Esse processo não era homogêneo nem transcorria sem conflitos. Havia resistência e punição a quem se colocava contra a “ordem”. Eram os “desordeiros”, os “inimigos da ordem”, conceitos afinados na “ponta da língua” da Igreja, da escola, da imprensa, etc, que deveriam ser repetidos cotidianamente, perante os sujeitos que participavam das atividades desses aparelhos ideológicos de hegemonia.
No caso da educação escolar, merecem destaque as premiações concedidas pelo Estado aos professores da “ordem” e, ao mesmo tempo, as punições impostas aos que se mostrassem “desordeiros”, seja sob a forma de exoneração ou de aposentadorias forçadas. (ALMEIDA, 1998).
O livro didático, nesse particular, passou por controle absoluto do Estado, havendo forte censura a fim de evitar o “perigo da infiltração vermelha nas obras educacionais da infância” e de não se colocar, nas mãos das crianças, a “arma branca dos bolcheviques.”
O Estado forte cada vez, mais pautava suas ações pelo intervencionismo, de tal forma que criava políticas culturais imprescindíveis à legitimação ideológica do regime vigente. Embora não seja o foco central de nosso trabalho, essas políticas culturais se constituem de grande importância para a reflexão sobre a nossa temática.
O trabalho de Cury (2003) é valioso para compreendermos as vinculações envolvendo educação/cultura e nacionalismos no Brasil, em três temporalidades históricas diferentes. Com relação ao período que nos interessa nesse trabalho, a historiadora discorre sobre o papel dos intelectuais na configuração da brasilidade. Referindo-se aos anos trinta, a autora coloca que

Os discursos, interpretações e imagens produzidas durante a Era Vargas sobre identidade e memória nacional no interior do projeto de invenção da nação ou, como preferiam alguns, (re)invenção, encontram-se os intelectuais que ocupavam cargos de direção, no âmbito cultural. É neste contexto histórico que os dirigentes políticos formulam, pela primeira vez no Brasil (sob regime republicano), as chamadas políticas culturais, numa perspectiva preservacionista, “criando/inventando” nosso patrimônio histórico. Podemos dizer que dois segmentos da sociedade estavam envolvidos diretamente com esta temática. De um lado, vários grupos de intelectuais e, de outro, o estado varguista, não necessariamente em pólos opostos e, muitas vezes, como parceiros neste projeto.

Um órgão bastante emblemático, do ponto de vista da política de construção da brasilidade, foi o SPHAN (Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), surgido, em 1937, pelas mãos do modernista Mário de Andrade, incumbindo-se de proteger os monumentos e obras de arte nacionais.
Além dessa iniciativa, outras vieram, conjugando-se ao projeto de identidade nacional estadonovista, a exemplo do Instituto Nacional do Livro, do Instituto Nacional de Cinema Educativo, do Serviço Nacional do Teatro, e do Serviço de Radiodifusão Educativa, além do apoio direto a projetos de caráter individual, como o de Portinari e o de Villa-Lobos. (CURY, 2003)
Com relação à radiofonia educativa, Dângelo (1998) analisa a utilização do rádio e do cinema educativos, entre os anos 1920 e 1940, de grande relevância na visão do Estado, na transmissão do ensino da História da Pátria. O rádio cumpria a missão de veicular a propaganda ideológica do Estado Novo, de legitimar esse Estado como o que estava conduzindo a nação brasileira ao “progresso”, legitimidade feita em simbiose com um certo passado histórico apropriado.
Ensinar História pelo rádio tinha a vantagem de transmitir os símbolos, “heróis”, acontecimentos e comemorações nacionais em outros espaços de sociabilidade, que não apenas a sala de aula. As ondas do rádio, massificadas, atingiam em cheio o cotidiano doméstico, reforçando o ideário de brasilidade.

Ficando em casa, os ouvintes, atingidos nacionalmente por uma rede de rádio, juntar-se-iam a essa multidão, recebendo impressões irradiadas das ruas e dos estádios, em comemorações cívicas preparadas para saudar os mitos fundadores da nação, os heróis que realizaram os anseios de liberdade em nome do povo, o 07 de setembro, o 15 de novembro, o 19 de novembro, o 13 de maio e o 1º de maio. Ocorre, portanto, uma articulação dessas celebrações pelo rádio educativo ao ensino de História, bem como à organização dos dispositivos de censura e produção de manifestações cívicas nos anos 30 e 40. (DÂNGELO, 1998).

O autor coloca que a dramatização era a forma mais utilizada na transmissão da história da pátria pelo rádio. O papel do professor era diminuto, pois,
A este restaria atrair os alunos para a História com o uso de livros didáticos, mapas e quadros intuitivos devidamente preparados e indicados para a absorção dos mitos, heróis e valores nacionais e aos conferencistas do rádio caberia a criação das cenas, induzindo os alunos ao local e época narrados, conferindo ao técnico a atribuição das montagens e efeitos apropriados. (DÂNGELO, 1998)

Diante do exposto, podemos perceber o quanto o nacionalismo era a tônica da Era Vargas. Sendo dessa forma, João Pessoa passa à condição de “herói” nacional como uma construção histórica da Aliança Liberal. A documentação que analisamos, é enfática em mostrar a imagem de João Pessoa como “vulto da pátria”, como “herói” da História nacional. Senão, vejamos:

(...)Seus passos ficaram marcados na história nacional e só a lembrança do seu nome equivale a um depoimento justificativo da sua superioridade. (...) É que esse homem foi um assombro da pureza republicana, tendo pela Pátria um culto inverossimilhante alto e absorvente. Foi por ele que os olhares do Brasil se fixaram na Paraíba, tornada, então, barreira aos desmandos de uma época mais do que calamitosa para o país. (Jornal A União, 26 jul. 1944, grifos nossos).

Esse trecho é bastante relevante no tocante à inserção de um mito que veio reafirmar a identidade de um povo bravo e resistente, o paraibano, mas no contexto do Estado Nacional centralizado. Essa era a visão de mundo do grupo da Aliança Liberal na Paraíba, que buscava articular-se ao quadro político nacional. Por outro lado, tudo que o varguismo queria, era evitar os regionalismos em favor do nacionalismo, daí, parece que a solução encontrada para a questão de alguns mitos regionais, era cultuá-los como “heróis da Pátria”. Assim também ocorreu, na mesma época, com o mito dos bandeirantes, de modo que o “passado bandeirístico legitimava ainda a dominação paulista frente ao Brasil, porque havia sido o bandeirante quem dilatara a pátria, implantando uma conduta disciplinadora pela ação guerreira e mística”. (BITTENCOURT, 1990, p. 187). Mas, desta feita, o bandeirante aparece nitidamente como “herói da Pátria”.
Outra questão interessante, na citação acima, é a utilização da memória mitificada de João Pessoa como forma de legitimar o regime republicano, sobretudo, da segunda república. A documentação que trabalhamos, é rica em afirmações que buscam uma linearidade de “heróis” que sempre lutaram pela república, desde os tempos coloniais até o presidente João Pessoa. Reiterar a paraibanidade, heróica e republicana, estava sempre na ordem do dia, como podemos perceber a seguir:

João Pessôa, pelo cunho excepcional das circunstâncias que lhe cercaram a ação e o sacrifício e pelo sentido grandioso e profundo da sua atitude perante a história política do Brasil, avançou sôbre o futuro. Antecipou-se á consagração da posteridade. Póde-se dizer que, na mesma hora em que êle tombou, fez-se em torno do seu nome êsse halo de imortalidade e de glória que circunda um Tiradentes, um Miguelinho, um Frei Caneca. Um dêsses símbolos impressionantes e eternos do idealismo e da bravura do homem consubstanciado numa causa libertária e generosa. (Jornal A União, 26 jul. 1938, grifos nossos).

Pelo visto, o discurso acima enunciado, tem uma conotação bastante predestinada, João Pessoa parece escrever o futuro, à luz de mitos do passado.
Fazendo uso da epígrafe com que abrimos esse ponto de nosso trabalho, não podemos pensar nas festas cívicas sem as remetermos para a sua função pedagógica. A historiadora Souza (1999, p. 235), analisando as festas cívicas, no contexto da transição do Brasil colonial para o Império, alude ao fato de que “essa festa de intenso teor político precisava dizer algo, dirigir-se ao povo, enviando-lhe uma mensagem sobre o assunto da separação entre Brasil e Portugal”. E afirma que “este gênero de festa tinha horror ao nada dizer ou conseguir comunicar, ao vazio, ao silêncio dos espectadores ou a sua recusa em participar” (SOUZA, 1999, p. 235). Tais comemorações, portanto, objetivavam, no caso citado pela autora e, com a participação da população, a consolidação do processo de adesão à figura de D. Pedro I.
A pedagogia das festas comemorativas da memória de João Pessoa, como o “herói da Revolução de 1930”, também tinha uma mensagem a passar, como forma de dar legitimidade ao Estado Nacional varguista e seus representantes no controle do aparelho de estado paraibano. Colar na imagem mítica de João Pessoa tinha por finalidade justificar os governos que foram se sucedendo de 1930 a 1945. Com o artigo escrito por José Fernandes de Luna, para o Jornal A União, podemos exemplificar a questão:

Não é necessário ser muito perspicaz para reconhecer o traço de semelhança que há entre o nosso atual interventor e o presidente João Pessôa. Como êste, Ruy Carneiro experimentou anos de lutas e sacrifícios até alcançar a posição de relêvo que hoje desfruta. Desde os dias agitados da campanha redentora de 1930, esse jovem governante tem pautado as suas ações pelos princípios sadios e humanitários do Grande Presidente. Como êle, ainda, Ruy Carneiro e o seu povo fortalecem a coluna altiva da Democracia Brasileira, lutando pela União Nacional em tôrno de Getúlio Vargas, para que o Brasil progrida num ambiente de tranqüilidade e mútua compreensão. (Jornal A União, 26 jul. 1944, capa, grifos nossos).

Nessa citação, vemos o caso do estabelecimento da continuidade histórica entre Ruy Carneiro e João Pessoa, mas a documentação oficial é farta dessas bricolagens presente-passado com os outros interventores/governador, a saber: José Américo (1930), Antenor Navarro (1930-1932), Gratuliano de Brito (1932-1934), Argemiro de Figueiredo (1935-1940) e o próprio Ruy Carneiro (1940-1945). Outra questão perceptível na referida citação é a reprodução, nos estados, do projeto político-ideológico do Estado Nacional. Os interventores serão coadjuvantes na reiteração do nacionalismo autoritário, sobretudo, a partir de 1937, com o golpe do Estado Novo. Em resumo: a cada ano que se celebrava o aniversário de morte de João Pessoa, havia a legitimação do governo paraibano e da ideologia do Estado Nacional varguista.
Festejava-se por toda parte, do recinto de várias instituições à praça pública. Esta se torna lugar privilegiado para as comemorações cívicas, uma vez que “educa” as pessoas que não freqüentavam as escolas, misturando, num espaço único, uma diversidade de sujeitos: alunos, famílias, autoridades e a população, de um modo geral. Constitui-se um método educacional de vasto alcance e preenche as expectativas dos organizadores das festas.

AS PRÁTICAS COMEMORATIVAS SOBRE JOÃO PESSOA

Falar em organizadores das festas suscita entrarmos na discussão das outras questões propostas anteriormente: as práticas constitutivas das comemorações e o papel das instituições em tais festejos, sobretudo, a instituição escolar.
Pelo que pudemos apurar, a sistematização das festas cívicas do 26 de julho, na Paraíba, estava a cabo do Centro Cívico “João Pessoa” e do Estado, como instituições diferentes, porém, compostas, basicamente, pelas mesmas pessoas.
Nossa leitura conceitual de Estado, nessa análise, fundamenta-se na teoria do marxista italiano Antonio Gramsci. Partindo da noção de Estado Ampliado, Gramsci entende o Estado abrangendo tanto o aparelho repressivo (sociedade política) quanto os aparelhos ideológicos (sociedade civil), sendo que, ambos, de uma forma ou de outra, cumprem a missão de produzir e reproduzir a hegemonia.
É o que podemos ver no pós-1930, na Paraíba, com a devida cautela nos usos dos conceitos. Tanto a sociedade política quanto a sociedade civil estavam mobilizadas para manter a hegemonia do bloco histórico vitorioso após a “Revolução de 1930”. No caso das festas cívicas do 26 de julho, a sociedade civil participa de forma atuante, destacando-se, na organização das comemorações. Dentre suas instituições, podemos apontar: o Centro Espírita “Tomaz de Aquino”; as escolas (Escola de Aprendizes Artífices, Academia de Comércio “Epitácio Pessoa”, Liceu Paraibano, Colégio Diocesano, Instituto Comercial “João Pessoa”, apenas para citar as mais importantes); a Associação Paraibana de Imprensa; a Rádio Tabajara; a Rádio Club da Parahyba; o Jornal A União; a Igreja Católica; os sindicatos e associações (Sindicato dos Trabalhadores da Indústria do Cimento, Cal e Gesso, Centro Beneficiente Paraibano, Centro Proletário “Alberto de Brito”, Liga Beneficiente Operária, União Beneficiente do Trabalhador, Aliança Proletária Beneficiente, Sociedade Literária Ruy Barbosa); entidades de Cultura e Desporto (Sport Club “João Pessôa”, Liga Suburbana de Desporto, orfeões, bandas de músicas,etc).
Todos essas instituições, além de participarem das festas na praça pública, também realizavam sessões cívicas no interior de seus recintos. Fazia-se questão de noticiar o ato cívico, pelas páginas oficiais do Jornal A União.
No primeiro ano após a morte de João Pessoa, as comemorações tiveram uma dimensão de largas proporções, certamente porque ainda era bastante recente o fato. Houve programação por uma semana inteira, cada dia reservado a um determinado setor da sociedade. (QUADRO I)

QUADRO I
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PROGRAMAÇAO DA SEMANA DE JOÃO PESSOA (1931)
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DIA INSTITUIÇÃO ATIVIDADE
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19/07/1931 Estudantes e Professores 8h - Partirá do Palácio passeata cívica com o retrato de João Pessoa conduzido pelo interventor Antenor Navarro, a fim de fazer a aposição no Altar da Pátria, em frente à Escola Normal.
9h - Comunidade de professores e estudantes receberá o retrato e fará a aposição. Salva pela bateria de montanha. Uma companhia do 22º BC prestará guarda de honra com a escola de música cantando o hino de João Pessoa e o Nacional.
10 às 14 h- Inaugurações oficiais e placa comemorativa.
15h - Reunião na Praça do Carmo sob a direção do professorado. Todos os alunos de todos os estabelecimentos de ensino.
15:30 h- Partirá da praça a grande passeata cívica de estudantes e professores para desfilarem de frente ao Altar da Pátria. Todos formarão para homenagear João Pessoa, onde falará um representante dos estudantes e outro da comissão organizadora. A banda de música cantará o hino de João Pessoa e a banda de música da polícia tocará o Nacional. Durante todo dia, velará o Altar estudantes e professore.
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20/07/1931 Operários e Trabalhadores 6h - Salva de vinte e um tiros.
6 às 12 h- Inaugurações oficiais.
14h - Inauguração do marco da pedra tosca com inscrição alusiva e também da Praça do Trabalho.
15h - Organização do Préstito cívico
16h - Partida do préstito da Praça do Trabalho a fim de desfilar sobre o Altar da Pátria. Discursos e hinos.
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21/07/1931 Classes Armadas 6h - Içamento da bandeira nos quartéis.
6 às 13 h- Inaugurações das placas da classes.
14h- partida dos quartéis a fim de formarem na rua General Osório de onde desfilará às 16 horas em direção ao Altar da Pátria, onde deve estar o estado maior das forças. Discursos e hinos.
22/07/1930 Mulher Paraibana 8h - Missa na Catedral por almas dos soldados mortos na revolta de Princesa.
8 às 14 h- Inaugurações oficiais, inclusive a de uma cruz na área nova do cemitério, na base da qual será colocada uma pedra, oferta da mulher paraibana em homenagem aos soldados de Princesa.
15h - reunião de mulheres no Parque Sólon de Lucena.
16h - Partida em direção ao Altar da Pátria. Discursos e Hinos.
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23/07/1931 Comércio 6 às 13 h- Inaugurações oficiais.
14h Sessão magna na Associação Comercial e inauguração de uma placa de bronze em uma das colunas da fachada principal do prédio.
16h - Partida do préstito cívico da Associação Comercial com destino ao desfile de fronte ao Altar da Pátria. Discursos e Hinos.
24/07/1931 Funcionalismo Público Até às 13h - Inaugurações oficiais.
14h - Colocação de uma placa no prédio da Empresa de Correios e Telégrafos.
15h - Reunião das classes na Praça Pedro Américo.
16h - Partida em direção ao desfile de fronte ao Altar da Pátria. Discursos e Hinos.
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25/07/1931 Clero e Associações de Caridade 7h - Missa realizada na cadeia pública.
Após a missa, uma comunidade de mulheres colocará no peito dos detentos uma pequena bandeira do “Nego” com o retrato de João Pessoa.
Até 14 h - Inaugurações oficiais.
15h - Reunião em frente a Catedral.
16h - Partida das “classes dos pobres” acompanhando o clero e associados da UMC em direção ao Altar da Pátria. Discursos e Hinos.
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26/07/1931 8h - Inauguração do Hospital de Isolamento.
10h - Inauguração do pavilhão do Chá.
14 h - Reunião de todo povo na Praça da Independência em frente a casa que morou João Pessoa. Na ocasião falou o padre Matias Freire. Desfile das bandas de música e corporações militares até a Praça João Pessoa onde às 17:23 h, tocará por trinta segundos sirene de A União, anunciando a hora em que morreu o presidente, afim de se guardar um minuto de silêncio. Hinos. Fala o interventor Antenor Navarro. Hino Nacional.
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Fonte: Jornal A União, 18 jul.1931, grifos nossos. Quadro elaborado pelo autor. Os erros vernaculares foram mantidos tais como constam no documento, pois, ao elaborarmos o quadro, mantivemos a programação tal qual está na fonte. Preferimos esse procedimento para não inflacionar o texto de sic.


O quadro acima evidencia o quanto a festa tinha objetivos de construir uma coesão social. A praça pública tornou-se um espaço de pretensa unidade e, ao mesmo tempo, de segmentação. Isso porque o Estado, com o fim de tornar coletiva a memória de João Pessoa, e assim, buscar legitimar-se, procurava apoio nos diversos segmentos sociais. Interessante observarmos a teia de relações institucionais construída no momento de comemoração cívica do 26 de julho. Poderíamos resumir dessa forma: escola-Estado, sindicatos-Estado, militares-Estado, Associação Comercial-Estado, Funcionários públicos-Estado e Igreja Católica-Estado. Nessa teia de relações, havia espaços que funcionavam de forma simbólica. Como vimos no quadro acima, cada dia estava reservado à comemoração por parte de determinados setores da sociedade. Sendo assim, cada grupo social, ao realizar a romaria ao Altar da Pátria, partia de um espaço material e simbolicamente representativo de seu grupo e/ ou classe. Por exemplo: os estudantes, professores e diretores ficavam próximos ao Altar da Pátria, de fronte à Escola Normal, a fim de recepcionarem o interventor e sua comitiva oficial, que traziam a efígie de João Pessoa para colocá-la no referido altar. Os operários e trabalhadores, de um modo geral, partiam da Praça do Trabalho; as “classes armadas” tomavam como ponto de partida os quartéis; os comerciantes, por sua vez, saiam da Associação Comercial; o clero e Associações de Caridade reuniam-se na catedral; todos em direção ao Altar da Pátria, rumando ao encontro da efígie do mito João Pessoa e dos representantes do Estado que lá estavam.
Se o objetivo dos organizadores das festas era promover a coesão social em torno de um elemento congregador, o culto à memória de João Pessoa, por outro lado, podemos perceber nitidamente a segmentação social, demonstrada pela programação, cada qual no seu canto, em seu lugar institucional mas de acordo com uma “ordem”.
A maior demonstração dos usos político-ideológicos das festas cívicas do 26 de julho pode ser vista na idéia de continuidade histórica da obra de João Pessoa. Ao passo que se cultuava o mito, também se homenageava os governantes da época, como seguidores das práticas “modernas” de administração do presidente morto. No Jornal A União, podemos observar que, ao lado da fotografia de João Pessoa, estava o interventor federal que estivesse no cargo, na ocasião. Celebrava-se o morto e homenageava-se o vivo, aquele que podia realizar a “grande obra” do presidente João Pessoa. Também podemos ver, sobretudo nos primeiros anos das comemorações do 26 de julho, os governantes aproveitando o feriado mítico para inaugurações de obras, mais precisamente, aquelas que João Pessoa iniciara. Na semana de comemorações em 1931, no dia 26 de julho, o interventor Antenor Navarro inaugurou o Pavilhão do Chá e a Ponte do Mulungú, divulgou a continuidade da construção da obra do Hotel Parahyba e assinou o contrato para a construção do Porto de Cabedelo, todas as obras, apostas no periódico oficial como a continuação do programa de governo de João Pessoa.
As comemorações, porém, não se restringiam à Paraíba. Na capital federal, o Presidente da República, Getúlio Vargas, e comitiva faziam uma romaria ao cemitério São João Batista, cultuando a memória de João Pessoa, diante do monumento erguido em homenagem ao ex-presidente da Paraíba.
A partir de 1932, as festas eram realizadas apenas no dia 26 de julho, em diversas instituições, e em vários municípios paraibanos. A programação se iniciava com a “missa de réquiem”, seguida de uma romaria em direção ao Altar da Pátria.
Nesse ano, o 22º BC, símbolo da tomada do poder em 1930, quando os insurretos iniciaram o movimento na Paraíba, desfilou nas ruas do Rio de Janeiro entoando o hino de João Pessoa. Pelo que podemos analisar, tomando como contexto a rebelião paulista de 1932, a memória do ex-presidente paraibano era por demais utilizada como demonstração de apoio do Norte ao governo Vargas. De modo que, do ponto de vista simbólico, o desfile representava de que lado estava a Paraíba naquele conflito, o apoio a Vargas, que se fez, inclusive, no plano militar, quando o interventor Gratuliano de Brito enviou tropas da Polícia Militar da Paraíba a fim de combaterem os paulistas.
O Altar da Pátria se constituiu como lugar sagrado e cívico, santificando João Pessoa para legitimar seus herdeiros políticos no controle do aparelho de Estado paraibano. As pessoas adoravam o altar de João Pessoa, tal qual adoram, nas igrejas, o Santíssimo Sacramento.
Como podemos ver na fotografia abaixo (nº 14) tratava-se de uma construção imponente, iluminada, na qual, na base, se encontrava uma imensa efígie de João Pessoa. No centro, podemos ver a Bandeira do Nego, já no seu formato atual, como uma representação da Paraíba sobressaindo-se perante os demais estados que se encontram, ordenadamente, em placas, na torre do referido altar. É um símbolo do nacionalismo varguista, da pretensa união dos estados em torno do projeto desenvolvido por Getúlio, após o movimento de 1930, e a reestruturação do novo Estado nacional brasileiro.
Na frente do Altar, havia sempre uma cena de ritual de pessoas desfilando à sua frente, parando para reverenciarem a memória do ex-presidente. É um rito cívico, mas com características cristãs, uma vez que se assemelha à adoração do Santíssimo Sacramento, exposto no Altar.
Em 1933, devido à proximidade da inauguração do monumento a João Pessoa, o qual analisamos no segundo capítulo, a comemoração oficial ocorreu de forma mais simples, resumindo-se à tradicional “missa de réquiem”, romaria ao Altar da Pátria e discursos. De 1934 a 1945, após a celebração religiosa na catedral, a romaria tomava o rumo da Praça João Pessoa, comemorando ao pé do monumento do ex-presidente. “Cada cidadão permanecerá ao pé da estátua cerca de meia hora, em turmas previamente organizadas”, (Jornal A União, 23 jul. 1935, capa), sendo que havia inscrições, na sede do jornal oficial do governo, para quem se dispusesse a participar do ritual da guarda ao monumento.
No entanto, podemos registrar que, além de instituições (Centro Cívico “João Pessoa”, Associação Parahybana pelo Progresso Feminino, entre outras), constam nomes de famílias de destaque na sociedade paraibana, como, por exemplo, Samuel Hardman Norat, Augusto Santa Rosa, João de Castro Pinto, Severino Procópio, José Leal e o próprio Ademar Vidal, um dos intelectuais construtores da memória sobre João Pessoa.
Após esse breve histórico, retomamos à questão da sociedade civil paraibana e à reprodução da ideologia dos grupos dominantes, utilizando as festas cívicas de forma pedagógica.
Vamos começar com a imprensa. A Rádio Tabajara, órgão estatal, criada em 1937, durante o governo Argemiro de Figueiredo, além de transmitir, ao vivo, toda a programação dos festejos do 26 de julho, na praça pública, dedicava um programa em homenagem a João Pessoa, intitulado “A Hora do Grande Presidente”. Em alguns municípios do interior, a transmissão de suas festividades era operada pela tradicional difusora local. Além do rádio, que se constituía como veículo de propaganda oficial, também atuavam os jornais, merecendo destaque o estatal A União e o jornal católico A Imprensa. Pelo que pudemos averiguar no trabalho de investigação que realizamos, sobretudo no primeiro, a partir do dia 23 de julho de cada ano, o periódico iniciava as notícias das comemorações, com convite do governo e do Centro Cívico e sinalizando com a programação. Passado o dia 26, continuava a divulgar matérias sobre o evento, inclusive, transcrevendo cópias de telegramas recebidos de demais municípios, comunicando sobre a realização de rituais cívicos. Nos primeiros anos, o Jornal A União ainda trazia, na primeira página, a foto do ex-presidente João Pessoa, de corpo inteiro.
Santana (1999, p. 246) realça o papel da imprensa no governo Argemiro de Figueiredo (1935-1940), melhorando o parque gráfico do Jornal A União, inaugurando a Rádio Tabajara e criando serviços radiofônicos nos municípios paraibanos, transmitindo sua palavra meia hora antes do programa “Voz do Brasil”. A autora ainda destaca trecho de um discurso de Argemiro, no qual enfatizava o papel educativo da referida emissora de rádio.
As religiões também se colocavam como aparelhos ideológicos, nesse particular. Além do Centro Espírita “Tomaz de Aquino”, que realizava sessão solene naquela instituição, era a religião Católica o grande baluarte das comemorações cívicas. Nesse momento, a instituição vinha em processo de reconciliação com o Estado, após a “separação” ocorrida legalmente com a Constituição de 1891. No início da Era Vargas, com o Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova, que defendia uma escola laica, pública, gratuita e nacional, verificou-se a oposição de setores católicos, como era de se esperar. Entretanto, no ministério de Capanema, Estado e Igreja Católica se reaproximaram. (BITTENCOURT, 1990, p. 24).
Poucas eram as solenidades que não começavam por uma missa pela alma de João Pessoa. O início da programação das festas na capital sempre se dava com a “missa de réquiem”, assim que amanhecia o dia 26 de julho. Na maioria delas, era o próprio arcebispo, o celebrante. Da catedral metropolitana, autoridades e população realizavam uma romaria em direção ao monumento do ex-presidente.
A preocupação com as classes trabalhadoras, por parte do governo, fica evidente no tocante à participação de associações e sindicatos na programação cívica do 26 de julho. Reproduzindo o que ocorria a nível nacional, o Estado se colocava como arbítro das questões envolvendo patrões e empregados, justamente para evitar a luta de classes. Igreja, Estado, escolas, meios de comunicação, etc, se encarregavam de difundir a propaganda anti-comunista e veicular como “ideal” os princípios totalitários circulantes no cenário internacional.
Em diversos municípios da Paraíba, no auge do argemirismo, foram implantadas Comissões Nacionais de Propaganda Sisthemática contra o Comunismo, das quais muitos membros eram professores, médicos, padres, jornalistas, advogados, dentre outros profissionais liberais. (SANTANA, 1999, p.238/239).
No primeiro ano da comemoração, o proletariado prestou homenagem à memória de João Pessoa, ao colocar, na Praça do Trabalho, um bloco de pedra pesando vinte e duas toneladas. Neste bloco, foram apostas uma coroa de louro e uma placa de bronze, cujos dizeres aludiam à homenagem dos trabalhadores paraibanos ao presidente morto. Houve uma solenidade, inclusive, com a participação do interventor, ao transportar-se o referido bloco da estação da “Great Western” para a citada praça.
Gurjão (1994) ressalta que as relações entre os trabalhadores operários e os dois primeiros interventores ocorreram, relativamente, de forma amistosa, tendo se alterado a partir de 1934/1935, durante o governo de Argemiro de Figueiredo. Para a autora:

(...) o culto à memória de João Pessoa de certa forma, unia a classe subalterna ao projeto político da interventoria. Acrescente-se o impacto das obras contra as secas e a decretação das leis trabalhistas como instrumentos de persuasão incutindo a imagem do Estado protetor. (GURJÃO, 1994, p.150)

Logo após o movimento de outubro de 1930, a interventoria promoveu um Congresso Operário, cuja abertura foi solenemente revestida de uma homenagem à memória de João Pessoa. O Jornal A União (9 nov. 1930) assim se reporta àquele momento:

Instalação onte-ontem no Teatro Santa Rosa do Congresso Proletário, na ocasião o retrato de João Pessoa envolvido com os pavilhões da República e da Paraíba, occupava no recinto o logar de maior destaque. O senhor Fiúza Lima, que presidiu a sessão, pediu que todos permanecessem de pé, por um minuto, em silêncio como homenagem ao grande e inolvidável estadista sacrificado pela inveja e pelo ódio dos poderosos de então e ainda como reverência a memória dos proletários mortos na Revolução.

Fazemos coro com Gurjão (1994, p. 117), ao demonstrar o quanto a memória de João Pessoa era utilizada, ideologicamente, como forma de unir a classe subalterna ao projeto político do bloco dirigente. A legislação trabalhista se encarregara de consolidar a cooptação do operariado. Quanto aos trabalhadores do campo, as “obras contra as seca” funcionavam de modo a expressar a imagem paternalista do Estado e construir a imagem de Vargas e José Américo como “pais dos pobres”.
Pelo visto, e pesquisado, sempre as classes trabalhadoras participavam da festa oficial. Em 1937, na efervescência da repressão e às vésperas do golpe do Estado Novo, o Centro Beneficiente Paraibano se fizera representar nas comemorações, por intermédio de um discurso de Lourenço da Graça, orando como representante do operariado. Repetiu a participação nos anos de 1938 a 1943, até onde pudemos apurar. Assim, parece procedente a afirmativa de Gurjão (1994, p. 169), ao assegurar que

(...) dirigentes de entidades operárias, a partir de então (período da repressão argemirista), sempre aparecem nas cerimônias oficiais, ao lado das autoridades, cooptados, portanto, pelo regime, fornecendo a impressão de que ele contava com o respaldo popular. Complementando o trabalho ideológico, constantemente eram realizadas conferências nas escolas, nas associações operárias etc, como parte da intensa campanha cultural contra o bolchevismo. (Grifos nossos).

Exemplo mais significativo foi a participação do líder do Partido Comunista, na Paraíba, João Santa Cruz de Oliveira. Nas comemorações de 26 de julho de 1938, às 18 horas, fechavam a solenidade oficial, na Praça João Pessoa, os discursos de João de Deus Mindêllo, Luis Pinto e João Santa Cruz de Oliveira. Estava o comunista participando da mesma festa organizada pelo interventor Argemiro de Figueiredo, três anos depois de ser preso por este, na chamada Intentona Comunista.
A arte também cumpriu seu papel nas festividades do mito João Pessoa. O cinema, por exemplo, ao mesmo tempo veio reafirmar com louvor a memória do ex-presidente. Nas comemorações de 1935, foi exibido, nos cinemas da capital, o filme “A vida pela liberdade”, película que documentava os acontecimentos vividos em 1930. O porta-voz oficial assim se reportava sobre a exibição;

A fim de exhibir num dos nossos cinemas o film “A Vida pela Liberdade” encontra-se nesta capital, vindo da Bahia, o Sr. Alcides de Souza. Essa pellicula, que docummenta os acontecimentos que encheram dias de agitação e de soffrimentos, vividos pela Parahyba, merece ser vista pela população pessoense, que venera a memória do seu Grande Presidente. (Jornal A União, 24 jul. 1935, capa)

No dia seguinte, o jornal oficial noticiava mais uma nota sobre os usos do cinema na socialização da memória histórica de João Pessoa. Anunciava que, no Cinema “Rio Branco”, por deliberação do seu diretor, Einar Svendsen, seriam projetadas as películas dos funerais de João Pessoa bem como das suas viagens aos estados de São Paulo e Minas Gerais, durante a campanha da Aliança Liberal. Em 1939, o filme dos funerais voltou a ser exibido, conforme divulga o periódico estatal.
Assinala Ozouf (1988, p.219) que

(...) as festas da Revolução são festas faladas, muito mais do que festas mostradas ou representadas (...) Acolhem intermináveis discursos, encarregados de precisar seu alcance histórico. São sempre cuidadosas em limitar o desvio da interpretação, confiando a uma guarnição de cartazes e bandeiras, nos seus cortejos, o sentido dos grupos que desfilam. (...) A decoração, pouco confiante em sua pedagogia tácita, necessita de palavras para estabelecer sua adequação à cerimônia. Sente-se que importa menos a essas festas renovar uma emoção do que fixar uma narrativa. (Grifos nossos).

Evidentemente que a autora está se referindo às festas de comemoração da Revolução Francesa. Isso não implica dizer que não possamos pensar o caso da “Revolução de 1930”, à luz desse referencial. Talvez possamos fazer um reparo à frase final da citação, no sentido de que se renovava a emoção social para fixar a narrativa.
Comemorar João Pessoa e a “revolução”, anualmente, no 26 de julho, passava por práticas festivas demasiadamente faladas. O poder da retórica se fazia operante no sentido do fazer crer. Em todos os espaços institucionais, desde a pregação do arcebispo, passando pelas preleções escolares e a festa na Praça, havia uma numerosa gama de discursos. No entanto, como fez notar Ozouf, as palavras não eram pronunciadas sem um acompanhamento decorativo, os símbolos e o embelezamento da festa funcionavam de forma a se juntarem ao poder das palavras, no sentido de fixar a narrativa e assegurar a compreensão da mensagem.
Pelo que podemos perceber, da documentação colimada, os custos financeiros das festas cívicas do 26 de julho não eram ônus apenas do aparelho de Estado. Havia contribuições de toda parte. Em 1931, por exemplo, os funcionários da Prefeitura da Capital, da alfândega, os operários da Pedreira Cobé, estavam na lista de “patrocinadores” da Semana de João Pessoa. Os grupos populares, quando não contribuíam diretamente com as festividades, empenhando determinadas quantias, acabavam arcando com os custos de uma consolidação da memória histórica, cujos objetivos eram legitimar um governo das elites. Isso porque havia uma mercantilização de símbolos, a fim de cobrir as despesas com a construção de lugares de memória. A título de exemplos, cabe-nos citar a venda do retrato de João Pessoa para ser utilizado nas lapelas, e de bandeirinhas do “Nego”, cujos recursos, em tese, destinavam-se à construção do arco do triunfo. Também com o mesmo destino, foram postos à venda 800 folhetos biográficos de João Pessoa, de autoria do Dr. José Euclides.
O Jornal A União também traz as seguintes notas publicitárias: “A manteiga ‘JOÃO PESSOA’ encontra-se á venda em toda parte”; (A União, 28 jul. 1932, p.8) “Comer só manteiga ‘JOÃO PESSOA’ é ter amor á saúde;” (Jornal A União, 28 jul. 1932, p. 12) “Addicione todas as manhãs ao café, um pouco de manteiga ‘JOÃO PESSOA’ e verão que bebida deliciosa.” (Jornal A União, 28 jul. 1932, p. 10) Deduzimos, pois, que devia se tratar de um pequeno negócio privado, mas que se apropriou da marca simbólica de poder preponderante naquele momento. Devem os liberais tê-la consumido demasiadamente!
O livro “Do Grande Presidente”, de Ademar Vidal, editado pela Gráfica Oficial, foi posto no mercado com o faturamento destinado ao Orfanato D. Ulrico.

ESCOLA, FESTA CÍVICA, COMEMORAÇÃO

Com relação às escolas, assim como Gramsci resultou, as consideramos aparelhos ideológicos por excelência. No livro Os Intelectuais e a Organização da Cultura, o autor apresenta a tese central, definindo os intelectuais como um grupo social autônomo, com uma função social de porta-vozes dos grupos ligados ao mundo da produção.
O estudo da escola em Gramsci (1989, p. 15) não está separado do conjunto de seu pensamento. A instituição escolar era entendida como um "aparelho privado de hegemonia". A compreensão gramsciana de escola é de que esta estava direcionada para a construção de uma nova moral e uma nova cultura da classe subalterna, de modo a assegurar maior hegemonia sobre as demais classes e, conseqüentemente, na perspectiva da conquista do Estado. Por isso, entendia ser necessário romper com a subordinação intelectual e ideológica das classes subalternas, que se tornavam aliadas da cultura dominante ao reproduzirem sua ideologia. Ora, isso ocorria porque as concepções de mundo dos subalternos eram fragmentárias, assistemáticas e desorganizadas, constituindo o que se denomina de senso comum, produzido a partir da experiência cotidiana desses segmentos, que enfrentam conhecimentos ou saberes organizados e sistematizados dos grupos hegemônicos, de que é exemplo a memória de João Pessoa.
Rompido com o modelo do marxismo soviético da II Internacional, Gramsci não se prende ao determinismo econômico e vai trabalhar no campo da cultura, trazendo, nessa esteira, a discussão sobre os intelectuais e o papel da escola na construção da hegemonia e da contra-hegemonia.
À luz desse referencial, podemos pensar o papel das instituições escolares na disseminação da ideologia do Estado que se estrutura após 1930. A escola, sem dúvida, será um aparelho privado de hegemonia de grande força no tocante à socialização da memória de João Pessoa, de modo a legitimar a ordem e as diferenças sociais em nome de uma pretensa coesão social. Sobre o papel que as escolas paraibanas desempenharam na socialização da memória da “Revolução de 1930”, falamos a seguir.
Por meio do Jornal A União, o Diretor do Departamento de Educação do Estado da Paraíba divulgava nota convidando os diretores dos grupos escolares e regentes de escolas para participarem de reuniões, em seu gabinete, a fim de traçar o programa das comemorações do 26 de julho. Também convidava as escolas, públicas e privadas, a participarem dos festejos. A programação variava, desde conferências, teatro, palestras, sessões cívicas, realizada nas próprias instituições escolares, até a participação dessas últimas na festa oficial da praça pública. A título de programação interna de uma escola, vejamos um exemplo do município de Sapé, governado, à época, pelo prefeito Osvaldo Pessoa, irmão do ex-presidente homenageado:

1º- Hino a João Pessoa
2º- Discurso da Professora Maria das Dores Silveira
3º- Conferência com o Sr. Alzir Pimentel
4º- Saudação a João Pessoa- José Pinto
5º- Que será- Violeta Dalva
6º- A Pátria- Por um grupo de alunos
7º- O Credo- Bejanita Melo
8º- Saudação à Bandeira- Rosilda Freitas
9º- Herói- Arnóbio Cavalcanti
10º- Hino Nacional
(Jornal A União, 30 jul. 1942, p. 5)


Interessante notarmos que a comemoração se iniciava com o Hino de João Pessoa e se encerrava com o Hino Nacional. Homenageava-se o “herói”, mas, por outro lado, não se deixava por menos o culto à Pátria. A partir de 1937, com o Estado Novo, os símbolos estaduais foram proibidos de serem ostentados, de tal forma que, nas festas cívicas do 26 de julho, havia a sobrevalorização da Bandeira e do Hino Nacional, com vistas a aguçar o sentimento de brasilidade, de união nacional.
Entrevistando a professora Maura Tavares, do município de São João do Cariri, pudemos perceber outro método utilizado para comemorar o mito João Pessoa. Comenta a professora aposentada que

Sempre fazia, 26 de julho, sempre comemorava. Eu pelo menos fazia uma pecinha teatral dava aquela aula naquele dia e dali comentava com os alunos, um ia ser João Pessoa outro ia ser o fulano de tal Dantas, tou esquecida, outros ficavam ali como se estivesse num barzim, eu sei que enfrentava uma pecinha (...) e fazia (...). Comemorava essa data sempre (...) que era uma data cívica também como o sete de setembro como o dia de Tiradentes porque ele foi um herói que morreu pela Paraíba. Não devia ter matado, mas infelizmente no nosso país é assim.

Ainda no que diz respeito a metodologias utilizadas nas escolas, com a finalidade de comemorarem o feriado do 26 de julho, e reiterarem a memória de João Pessoa, o governo legislava, obrigando a realização de preleções nos estabelecimentos de ensino, objetivando “ressaltar as atitudes patrióticas do Grande Paraibano.” (Jornal A União, 25 jul. 1942, p. 6). Legislava, ainda, no sentido de criar recursos didáticos, a exemplo do retrato do presidente morto, considerado, desde 1930, material didático para às aulas de educação moral e cívica (Jornal A União, 8 out. 1930) e deliberando sobre a publicação de um livro didático destinado às escolas públicas, dele constando relato biográfico sobre João Pessoa. (Jornal A União, 14 nov. 1930).
O Jornal A União publicou uma exposição feita pela professora Ezilda Milanez Dantas aos alunos do Grupo Escolar “Álvaro Machado”, em Areia, por demais ilustrativa da socialização da memória oficial da “Revolução de 30”, na escola primária. O que vemos, a seguir, é um direcionamento metodológico para a reprodução da ideologia/história oficial, senão vejamos:

Hoje é feriado nacional... e tive o prazer de ser a escolhida para vos falar sôbre essa data. Quereis que vos faça um discurso ou vos conte uma história?
ALUNOS: queremos uma história...
Bem comumente as histórias dos meninos, começam por “Era uma vez...”
E, não querendo me afastar disso, começo do mesmo modo. Prestem bem atenção!... é uma história simples, porém repleta de grandes e belos exemplos e heróicos desenlaces!...
ERA UMA VEZ... um pequeno menino muito estudioso, inteligente e bom...
Era pobrezinho e estudava com muito sacrifício.
Nunca soubbe o que era felicidade, se a sua infância foi sem alegrias, a sua juventude foi rude e amarga!... mas êlle não desanimou, sempre forte, sempre a enfrentar as dificuldades que lhes surgira. (sic)
E assim foi indo dia a dia, ora dormindo ao relento aos embates das ondas, ora doente ao abandono, sem o carinho de um coração amigo, até que arrumado um emprego conseguiu mais tarde tornar-se doutor.
Agora formado ei-lo a fazer jus a ótimos empregos.
Conseguiu, portanto vencer na vida!...
O sofrimento da sua infância e as grandes dificuldades com que se viu a braços na sua juventude, foi o bastante para dotal-o de um caracter firme e sem mácula e de uma força moral que bem poucos têm conseguido possuir nos grandes momentos precisos!...
Agora tudo lhe sorria: via-se cercado de uma esposa dedicada e de seus filhinhos que o veneravam; não lhe faltando amigos e... tudo enfim, que pode satisfazer um espírito que não fosse o seu, pois não era egoísta.
Se já havia vencido uma vez, podia por-se a campo novamente, auxiliando e dando um exemplo aos demais homens, e, vencer uma segunda, uma terceira vez.
Então meus caros alunos, o menino de nossa história, agora homem feito, forte, sincero, destemido, apanhou-se para uma nova luta.
E abandonando o lar felis, os amigos, as honras e todas as comodidades de que gosava, arrojou-se a sua nova empresa. ERA UM NOVO BANDEIRANTE que ia surgir!...
Porém muito mais intrépido do que aqueles que haviam explorados os nossos sertões, incógnitos, porque a sua bandeira compunha-se exclusivamente de sua pessôa e trazendo apenas como armas, a sua força moral e o seu critério.
A sua bandeira não vinha em busca de escarvisar (sic) índios, nem caçar pedras preciosas; o seu ideal era outro!...
Para campo dos seus trabalhos, não procurou os grandes centros populosos mas a sua terra natal, uma TERRA PEQUENINA E BOA. (Jornal A União, 26 jul. 1931, p. 19, grifos nossos)

O documento é muito rico para análise. Sugere um cotejo da versão construída pela professora de Areia com os dados biográficos sobre João Pessoa. As maiúsculas do texto também são muito sugestivas. Comparar João Pessoa a um bandeirante talvez não agradasse ao homenageado, que lutara contra a hegemonia paulista. Uma outra característica ressaltada é a configuração do “herói’ que luta sozinho.
A professora continua a “historinha”, destacando a “boa administração” de João Pessoa, no governo paraibano (1928-1930). Utilizando figuras de linguagem, assim se expressa, ao falar da formação da Aliança Liberal:

Mas um dia, caros mininos, (sic.) tudo mudou! O dono da TERRA GRANDE onde a terra pequena estava encravada impôs a todos um novo dono para a terra grande que era repartida entre vinte terrenos (...). O povo da terra pequena, já acostumado a repelir imposições, como a dos holandeses, a dos portugueses, a dos paraguaios, uniu-se aos habitantes de outras duas terras maiores e não aceitaram a imposição do novo dono. O nosso administrador foi o primeiro a exclamar: NEGO o meu apoio e o da minha terra pequenina, por isso o homem mau, dono da Terra Grande fez cair todo seu ódio sobre o nosso bom administrador (...). E qual um novo Vidal de Negreiros tornou-se um invencível GUERRILHEIRO. (Jornal A União, 26 jul. 1931, p. 19)

Esse documento vem, mais uma vez, reiterar a identidade do paraibano como “povo bravo e resistente” desde os tempos coloniais. Um povo que teria demonstrado esses atributos na luta contra os holandeses e portugueses, durante o período colonial, e contra os paraguaios, durante o império. Mais uma vez, sobressaia-se na valentia, agora, no combate ao “dono” da “terra grande” (governo federal encarnado no presidente Washington Luís e no novo dono imposto, isto é, Júlio Prestes) que não “respeitava” a autonomia da “terra pequena”, uma vez que sinalizava com uma intervenção federal. João Pessoa é comparado a André Vidal de Negreiros, tendo em vista o “heroísmo” advindo do gesto do “Nego”, uma vez que foi o pioneiro a enfrentar o Catete. O deslocamento discursivo é impressionante: João Pessoa vira guerrilheiro!
Evidencia-se, com bastante ênfase, a idéia da Paraíba como um estado pequeno e pobre, mas que se fez grande pelos gestos de magnanimidade de seu povo, por intermédio de seu comandante. Não é a toa que Maurício de Lacerda, nome expressivo da Aliança Liberal, a nível nacional, comparou a Paraíba, em 1930, à Sérvia em 1914, denominando-a de “Serajevo Brasileira” (Jornal A União, 26 jul. 1931, p. 10).
Continuando a atividade de socialização da memória histórica dos vencedores de 1930, a professora narra a morte de João Pessoa com o seguinte teor:

Estava elle um dia a tarde a conversar despreocupadamente, com alguns amigos, numa das Terras Vizinhas que auxiliava os quilombos, quando uma bala, surpreendeu-o e prostou-o ferido da morte!... O nosso grande heróe que por sua terra tornou-se MARTIR era uma bôa estrela que nos guiava no caminho da Ordem e Progresso... (Jornal A União, 26 jul. 1931)

Uma leitura acurada desse trecho da palestra da professora demonstra, nitidamente, a construção da martirização do ex-presidente paraibano, tomando por base a sua morte. Teria, João Pessoa, sido pego de surpresa, na Confeitaria Glória, sem poder se defender, morrendo de forma traiçoeira. Outro ponto significativo, exposto no documento, é a forma como essa memória oficial vai definir o papel de Pernambuco naquela conjuntura histórica. Serão reafirmadas as vinculações do presidente pernambucano Estácio Coimbra, com o governo Washington Luis e com o grupo político organizador da Guerra de Princesa, através da imagem alusiva à terra vizinha que auxiliava os “quilombos de Princesa”, ou melhor dizendo, os “desordeiros”, revelando a visão estigmatizadora da professora em relação os negros escravos. A historiografia oficial sublinha, com bastante ênfase, os embargos e proibições de entrada de armas e munições para o governo paraibano, por território pernambucano, ao tempo que o governo deste estado criava facilidades para os rebeldes de Princesa Isabel. Os perrepistas são comparados aos quilombos, por serem “arruaceiros”.
Nesse documento, também podemos observar o modelo de História factual dos “vultos” e “heróis”, inaugurado nas escolas, durante o século XIX, tomando por base o ensino no colégio Pedro II. Os sujeitos da História, segundo esse pressuposto teórico, eram os “grandes homens”, responsáveis pela condução do povo ao estágio do “progresso” e da “civilização”. João Pessoa aparece no relato como o guia, a estrela-guia a iluminar o caminho do povo na ordem e no progresso.
Voltando à questão da referida atividade pedagógica, comemorativa do aniversário de morte de João Pessoa, a professora, utilizando o método da memorização mecânica, enveredou pelo caminho da sabatina, como podemos notar a seguir:

Agora que terminei a nossa história, quero saber se vocês compreenderam-na?
Quem era esse minino (sic.)que se tornou bandeirante?
Alunos- JOÃO PESSOA.
Qual era a terra pequenina que ele tornou grande?
Alumnos- O Estado da Paraíba.
O que ele exclamou quando o dono da Terra Grande impôs um novo dono?
Alunos- NÉGO...
Qual era a Terra Grande?
Alunos- O BRASIL... ... ...
Quaes são os discípulos de João Pessôa?
Alunos- Os que sabem bem governar com honradez e critério como José Américo etc.
Onde nasceu José Américo?
Alunos- Em AREIA.
Muito bem vocês devem se tornar bons discípulos de João Pessoa e dignos conterrâneos de José Américo.
(Canta o hino de João Pessoa)
Areia, 22 de julho de 1931.
Ezilda Milanez Dantas Professora do 6º Anno do G.E Álvaro Machado. (Jornal A União, 26 jul. 1931, p. 19)


Como faz notar Bittencourt (2004, p. 68), “A memorização era a tônica do processo de aprendizagem e a principal capacidade exigida dos alunos para o sucesso escolar”. Os métodos de ensino baseados na memorização correspondiam a um entendimento de que “saber história” perpassava pelo domínio de muitas informações, sabendo de cor os acontecimentos, as datas e nomes de “heróis”. Não obstante tais métodos sofrerem críticas, já no século XIX, de autores como Montessori, os chamados métodos ativos só iriam se configurar, na prática, após os anos de 1930. No entanto, no interior da Paraíba daqueles anos, vigoravam as velhas práticas escolares.
A autora citada utiliza o conceito de circularidade cultural para analisar os métodos mnemônicos impregnados na cultura escolar. Para ela, a sociedade brasileira tem se caracterizado pelas tradições orais. Repetiam-se contos e histórias para criança dormir, os serões nas fazendas e nos púlpitos das igrejas, com os sermões dos vigários. No entanto, quando nasce a instituição escolar, propondo uma forma de comunicação escrita, “Os métodos criados pela escola foram obrigados a submeter-se a mecanismos já existentes para imporem o saber que ela pretendia disseminar”. (BITTENCOURT, 2004, p.72). Assim, a cultura escolar/escrita filtrará características da cultura oral, tradicionalmente arraigada nas sociedades, para utilizar métodos como a aula expositiva e o questionário, tendo os alunos a obrigação de decorarem as questões para responderem, de forma oral e/ou escrita, nas sabatinas da vida.
Mas uma verdadeira aula de campo era apresentada na Praça João Pessoa, antes de 1933, ao pé do Altar da Pátria e depois, do próprio monumento do ex-presidente. Alunos, professores e diretores assistiam a “missa de réquiem”, depois peregrinavam, em romaria, da catedral metropolitana à praça. Lá desempenhavam diversas atividades: os alunos jogavam flores ao pé do Altar da Pátria ou do monumento, cantavam o Hino de João Pessoa; professores discursavam; os orfeões do Liceu Paraibano, da Escola Normal e do Colégio Diocesano, sob a regência do maestro Gazzi de Sá também entoavam o hino de João Pessoa e o Nacional.
Em artigo para o Jornal A União, datado de 14 de setembro de 1930, Rafael Correia de Oliveira afirma que, no dia anterior, ouvira, na Assembléia Legislativa, o deputado João Maurício, em conversa, defender a idéia de que a “Paraíba nova”, ao ter nova bandeira, deveria, também, ter um novo hino. Ele fala da cogitação de um concurso para esse fim, cuja melodia e letra deveriam ser compostas por “notas agudas e imperativas, estrophes flammejantes de bravura e revolta, traços profundos da mentalidade pahaybana no instante máximo de seu nolve e destemeroso sacrifício”. Entretanto, no projeto de lei que instituía a nova bandeira paraibana, havia um artigo que ressaltava a permanência dos demais símbolos da tradição antiga: hino, brasão e escudo.
A despeito desse dispositivo conservador, uma nova tradição foi inventada, criando-se um hino especialmente dedicado a João Pessoa. Em 22 de setembro de 1930, pouco mais de um mês após a morte do ex-presidente, o hino em sua homenagem já tinha sido gravado em disco de vinil, lançado pela Casa Edison, no Rio de Janeiro. Como a Aliança Liberal ainda não havia tomado o poder na capital federal, o que só viria a ocorrer em 24 de outubro seguinte, a polícia compareceu às casas dos vendedores, aconselhando-os a não venderem o produto. Mesmo assim, algumas delas, descumprindo os apelos militares, continuaram a comercializá-lo. O Hino de João Pessoa tem música de Eduardo Souto e letra do poeta pernambucano Oswaldo Santiago, conforme transcrito a seguir:
I

Lá do Norte um herói altaneiro,
Que da Pátria o amor conquistou,
Foi um vivo farol que ligeiro
Acendeu e depois se apagou.

Estribilho

João Pessoa, João Pessoa
Bravo filho do Sertão,
Toda Pátria espera um dia
A tua ressurreição.
João Pessoa, João Pessoa
O teu vulto varonil
Vive ainda, vive ainda
No coração do Brasil.

II

Como um cedro que tomba na mata,
Sob um raio que em cheio o feriu,
Assim ele ante a fúria insensata
De um feroz inimigo caiu.

III

Paraíba o rincão pequenino,
Como grande este homem te fez,
Hoje em ti cabe todo o destino
Todo orgulho da nossa altivez.


Na letra, os autores iniciam com um discurso regionalista, associando o herói à sua região de origem. Ao mesmo tempo, recuperam a frase de Euclides da Cunha, na qual o escritor valorizava a fortaleza e a bravura do “homem sertanejo”, para se remeterem a João Pessoa, como sertanejo do município de Umbuzeiro. Outro traço marcante, na composição do hino, é a associação entre João Pessoa e Jesus Cristo, aludindo a “sua ressurreição”. Ao final, fica evidente a reiteração da paraibanidade, da idéia de uma “Paraíba pequena e heróica”, brava e resistente, que se fizera grande pelas mãos de seu “herói”, “herói” esse que, de “tão grande”, virou nacional.
O Hino de João Pessoa estivera afinado na ponta da língua de estudantes, professores, autoridades políticas e militares, intelectuais e a população, de um modo geral. Também esteve afinado no sopro das filarmônicas e orfeões espalhados por toda a Paraíba. Além dos orfeões das principais escolas da capital, aos quais nos referimos em momento anterior, as filarmônicas municipais também participavam das festas comemorativas do 26 de julho, como veremos no depoimento a seguir. Indagada sobre a “Revolução de 1930”, no município de São João do Cariri, a entrevistada Edite Cordeiro de Souza78 relatou:

Ah num lembro muito não isso ai não, mas me lembro até dos hinos de João Pessoa, que ele, mataram ele, João Dantas foi quem matou ele em Recife né? E ele tava em mesa de refeição, ele tava palestrando com uns amigos ai Dantas entrou que ninguém viu atirou no coração. Ai eu sei o hino dele todim, num vou cantar não que eu tou muito rouca.[cantou um breve refrão] (...) Meu pai era mestre de música, num sabe? E agente era cantora, eu e outras irmãs, então, quando tirava esses hino vinha aqui pra São João pra na rua, dia da, do aniversário de morte dele cantava esses hino né?E agente era pago.Eu era mulecota nova pequena ainda mais me lembro de muita coisa.


Na Paraíba, a exemplo do que ocorria a nível nacional, a Igreja Católica, sobretudo nos anos de 1930, exerceu intensa campanha anti-comunista, apoximando-se do integralismo, forjando uma imagem maléfica e assustadora do regime soviético, e ajudando o Estado no combate à disseminação de seus partidários no Brasil, de um modo geral e, na Paraíba, em particular.
Voltando à análise da fotografia acima, além da instituição católica, participando da comemoração do aniversário de morte de João Pessoa, podemos observar, em primeiro plano, duas filas de alunas, devidamente fardadas e uma senhora, talvez uma professora ou diretora, ostentando a Bandeira do “Nego”. Na lateral esquerda da imagem, se encontra a Banda Filarmônica local, que sempre participava das solenidades na condição de executora dos hinos. Entre o templo e os estudantes, estava a população, em meio aos estandartes católicos e bandeiras cívicas, formando uma cena na qual se conjugavam símbolos, instituições, rituais, sagrados e profanos, unidos pelo mesmo objetivo.
Ao falarmos de educação, não a reduzimos ao processo de ensino centrado na sala de aula. Em vários espaços institucionais, os intelectuais orgânicos do grupo vitorioso em 1930 pretenderam ensinar algo. A função pedagógica da escola preenche outros espaços que não apenas a sala de aula, a exemplo da praça pública e do Altar da Pátria. Nesses espaços, também se davam lições. O Jornal A União noticia que, nas comemorações de 1931, cerca de cinco mil alunos desfilaram em frente ao Altar da Pátria.
Em todos os espaços, o currículo aparecia como instrumento de legitimação da memória histórica de João Pessoa. Currículo, para nós, não se define apenas como a lista de conteúdos prescritos em um documento oficial, destinados a serem cumpridos em aulas. Comungamos com Berticelli (1999, p.165), quando afirma que “pode-se entender como currículo os conteúdos não expressos, mas latentes da socialização”, citando Forquin (apud Berticelli, 1999, p. 165), que também o define como

(...) o conjunto de competências ou de disposições que se adquire na escola por experiência, impregnação, familiarização ou inculcação difusas, ou seja, tudo aquilo que os anglófonos designam, às vezes, pelo termo de ‘currículo oculto, em contraste com aquilo que se adquire através de procedientos pedagógicos explícitos ou intencionais.

Ocorre que, a partir de 1931, com a criação do Ministério da Educação, o currículo passou a ser elaborado por comissões de intelectuais ligados ao referido ministério. Primava-se pela História Nacional, pelos “heróis” e vultos da Pátria. As comemorações do 26 de julho, na Paraíba, com todas as práticas pedagógicas, dentro ou fora da sala de aula, se inseriam no que podemos chamar de currículo oculto. Oficializadas pelo governo do estado da Paraíba, as festas cívicas, em alusão ao aniversário de morte de João Pessoa, não constavam no currículo nacional, o que não impede de se considerá-las repletas de intencionalidades e de legitimação do poder instituído. Elas ensinam, falam, formam subjetividades e identidades. Elas também reproduzem a ideologia dos grupos dominantes.
Nesse particular, não vemos incompatibilidade teórica quando pensamos a questão do currículo, entre as teorias críticas e as pós-críticas, não obstante suas elaborações do problema por ângulos diferentes. Ambas são de fundamental importância para a reflexão sobre a questão curricular e educacional, para falarmos de forma mais geral.
De um lado, fazemos coro com as palavras de Silva (1999, p.145):

Embora seja evidente que somos cada vez mais governados por mecanismos sutis de poder tais como os analisados por Foucault, é também evidente que continuamos sendo também governados, de forma talvez menos sutil, por relações e estruturas de poder baseadas na propriedade de recursos econômicos e culturais. O poder econômico das grandes corporações industriais, comerciais e financeiras não pode ser facilmente equacionado com as formas capilares de poder tão bem descritas por Foucault. De forma similar, o poder político e militar de nações imperiais como os Estados Unidos não pode ser facilmente descrito pela “microfísica’ foucaultiana do poder.

A visão do macro-poder permite a apreensão da atuação do Estado e seus aparatos bem como dos grupos sociais que lhe dão suporte e nele se representam, na formulação de suas políticas de memórias, que lhe conferem direção, hegemonia. A visão de micro-poderes possibilita a apreensão das concepções das instituições e grupos da sociedade civil que ou se articulam com o poder do Estado na capilarização da visão hegemônica sobre o mundo e a própria sociedade, ou formulam visões de contra-hegemonia. Estas últimas, pouco espaço tinham na Paraíba, na época em estudo, embora se manifestassem.
De outro ângulo, no nosso modo de entender, o referencial teórico pós-crítico vem enxergar algumas questões que os críticos não colocaram por uma série de razões, entre as quais a própria temporalidade em que formularam suas teorias. Entretanto, não vemos grandes problemas em analisar o objeto currículo a partir de conceitos como ideologia, hegemonia, reprodução, e, ao mesmo tempo saber, poder, identidade e formação de subjetividades. São olhares diferentes, focos diferentes, pensados em contextos históricos diferentes, porém, o fato de uma vertente se configurar mais atual não significa que vertentes teóricas produzidas em outros tempos devam ser, peremptoriamente, rejeitadas em seu todo. Se assim fosse, cada vertente teórica seria um puro ato fundador inaugural, perdendo de vista a sua própria historicidade. Marx não deveria crédito a Hegel, mesmo refutando o seu pensamento, Foucault não deveria tributos a Nietzsche. Estamos de acordo com a concepção da historiadora Silveira, no tocante às perspectivas multidimensionais em detrimento das abordagens simplificadoras das análises históricas. Como afirma Silveira (2004)

Vale dizer que a crítica ao unidimensionalismo de perspectiva não cabe só ao economicismo marxista, mas ao culturalismo, ao politicismo, etc; e que, sendo crítica ao economicismo marxista também deve sê-lo ao economicismo liberal capitalista em sua linearidade mercadológica, crítica esta quase ausente nos meios acadêmicos, o que, no mínimo, é estranho ou revelador.

Fizemos uso dessa passageira discussão teórica a fim de sistematizarmos nosso olhar sobre a escola, o currículo e a socialização da memória histórica da “Revolução de 1930” na Paraíba.
Como já fizemos notar em passagens anteriores, ao comemorar o 26 de julho, a escola se colocava como aparelho de hegemonia, para retomar Gramsci. Pensando pelo lado das teorias pós-críticas, podemos dizer que o currículo também é um formador de identidades e subjetividades, uma vez que os discursos instituídos vão acabar constituindo o que somos e o que pensamos. O eu e o outro, ou a identidade e a alteridade, permeiam a linguagem da memória oficial da “Revolução de 1930”. Essa construção identitária sintetiza-se na paraibanidade, da qual já falamos em outras passagens desse texto. O “ser paraibano” era motivo de orgulho, tendo em vista ter sido o “pequenino” estado, pelo gesto do “grande homem”, o originador da “Revolução de 1930” e, portanto, fundador da “República Nova”. O Outro, os que não estavam com a Paraíba e a Aliança Liberal, eram representados como “arcaicos” e “passivos” diante da política café-com-leite. Ao construir essa identidade de “povo paraibano”, “bravo e resistente desde os princípios”, havia um esforço extraordinário de homogeneização da forma de pensar os acontecimentos da época e, assim, atingir uma adesão ao grupo vencedor, tendo João Pessoa como elemento congregador. Nesse movimento de homogeneização político-simbólica, aqueles que não sentiam pertencimento a essa visão de mundo instituinte, os derrotados de 1930, são relegados aos subterrâneos da memória, memória que se oficializa excluindo o grupo perrepista, por aquela referido nos termos de um passado que se quer apagar neste momento inaugural, fundante, de um “novo tempo”.
Assim, ao mesmo tempo em que o currículo reforçava essa identidade, também podemos entendê-lo como formador de subjetividades. Vejamos:

O director do Ensino Primário determinou ás escolas escolas públicas desta capital e do interior, que promovam amanhã, a realização de sessões cívicas, ás 15 horas, commemorativas da passagem do 3º aniversário da morte do presidente João Pessôa. Os professores deverão fazer uma prelecção sobre a vida do inesquecível parahybano, apontando-o aos seus alumnos como um exemplo a imitar. (Jornal A União, 25 jul. 1933, p. 8 grifos nossos).

Como podemos inferir, o currículo era instrumento de poder fortemente marcado pela formação de subjetividades, na medida em que inculcava valores morais constelados no mito, a ponto de sugerir que os alunos deveriam seguir o exemplo de vida do ex-presidente.

Bourdieu questiona frontalmente a neutralidade da escola e do conhecimento escolar, argumentando que o que essa instituição representa e cobra dos alunos são, basicamente, os gostos, as crenças, as posturas e os valores dos grupos dominantes, dissimuladamente apresentados como cultura universal. A escola teria, assim, um papel ativo - ao definir seu currículo, seus métodos de ensino e suas formas de avaliação - no processo social de reprodução das desigualdades sociais. (NOGUEIRA e NOGUEIRA, 2002).

Rezando, estudando, soprando, cantando, noticiando, fotografando... assim ia sendo cristalizada a memória mítica de João Pessoa. Memória construída culturalmente, com o objetivo, explícito ou implícito, de manter a estabilidade e a coesão social, uma memória que se pretendia ser de todos os paraibanos, que almejava ter o apoio de diversos segmentos sociais com vistas à legitimação do bloco hegemônico após 1930. Diversas instituições se encarregaram de exercer um verdadeiro Poder Simbólico, esse poder que, segundo Bourdieu (1989, p. 14/15), se constituía

(...)pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a visão do mundo e, deste modo, a acção sobre o mundo, portanto o mundo; poder quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou econômica), graças ao efeito específico de mobilização, só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário. Isso significa que o poder simbólico em forma de uma “ illocutionary force” mas desta- entre os que exercem o poder e os que lhe estão sujeitos, quer dizer, isto é, na própria estrutura do campo em que se produz e se reproduz a crença. O que faz o poder das palavras e das palavras de ordem, poder de manter a ordem ou de a subverter, é a crença na legitimidade das palavras e daquele que as pronuncia, a crença cuja produção não é de competência das palavras. (Grifos nossos).

Durante os quinze anos da Era Vargas, período delimitado para este trabalho, foi constante a reiteração de tal simbologia, por meio das práticas das comemorações cívicas, que expressavam a ideologia das elites que comandavam a Paraíba, cooptando segmentos da sociedade civil da capital e de outras localidades do estado.
Dessa forma, o Poder Simbólico, da memória construída sobre João Pessoa, era socializado por várias instituições e segmentos, se estendendo aos grupos populares, não por meio da violência física, mas pela estratégia da violência simbólica, fazendo uso do poder de mobilização, de enunciação e de crença na legitimidade das palavras de quem as pronunciava.
Talvez - e fica aberto mais um campo temático a futuras investigações - o fato deste poder simbólico não ser reconhecido como arbitrário tenha advindo de um meio social receptivo à figura do presidente assassinado, a que se soma a comoção com a sua morte. Por outro lado, não se pode esquecer que os vencedores de 1930 foram extremamente eficientes e ágeis na elaboração dos efeitos de sentido em torno de João Pessoa na produção de lugares de memória, na ocupação de espaços institucionais de socialização do mito. Prova disso é a persistência desse mito para além do período desse estudo, praticamente até os dias atuais, quando a polêmica acerca da mudança do nome da capital paraibana evidencia que a disputa simbólica emergente nos anos trinta ainda não se encerrou, apesar dos mais de três lustros que nos distanciam dos acontecimentos que a instituíram.

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Arquivo Privado de Adhemar Vidal;
Arquivo Privado de João Pessoa;
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ARQUIVO DO INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÌSTICO DO ESTADO DA PARAÍBA (IPHAEP)

Inventário de Bens Móveis e Integrados do IPHAEP.

ARQUIVO MAURÍLIO DE ALMEIDA

Jornal Correio da Manhã (1930-1933)
Jornal A Liberdade (1930)

DEPOIMENTOS ORAIS

INADI TORRES VILAR: agricultor, nascido em 2 de fevereiro de 1927. Entrevista em 23 de janeiro de 2005.

REUZA RIBEIRO DE QUEIROZ: professora primária aposentada, nascida em 5 de outubro de 1923. Entrevista realizada em 6 de fevereiro de 2005.

MAURA TAVARES DE LIMA: professora aposentada, nascida em 5 de agosto de 1937. Entrevista realizada em 22 de outubro de 2005.

MANUEL DANTAS VILAR FILHO: engenheiro civil e fazendeiro no município de Taperoá. Entrevista realizada em 11 de maio de 2006.

EDITE CORDEIRO DE SOUZA: agricultora, residente no município de São João do Cariri. Entrevista concedida em 22 de outubro de 2006.

domingo, 19 de julho de 2009

MEU PROJETO DE DOUTORADO NA UFPE

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA









Projeto de Pesquisa- Doutorado

ESPETACULARIZAÇÃO DO PODER: CULTURA POLITICA, FESTAS CÍVICAS E ESTADO NOVO NA PARAÍBA (1937-1945)

José Luciano de Queiroz Aires











Outubro/2008




1- INTRODUÇÃO

Este projeto de pesquisa pretende investigar a cultura política paraibana no contexto nacional do Estado Novo (1937-1945), buscando evidências sobre os usos das imagens e das festas cívicas por parte dos interventores Argemiro de Figueiredo e Rui Carneiro , respectivamente, seguindo pistas para decifrar os objetivos do Estado e a recepção, por parte de atores sociais, dessa espetacularização do poder.
Um primeiro contato com a documentação me permitiu observar a diversificação de festas cívicas durante o período que proponho estudar, desde as de comemorações do aniversário do governo vigente, até as dos passados, da qual o Dia do Soldado é exemplo que se repete com relevância. As festas eram registradas, dentre outras, pela arte da fotografia e publicadas pelo Jornal oficial A União. Havia uma preocupação com a fabricação de um imaginário que o governo queria projetar no universo social.

2- DISCUSSÃO HISTORIOGRÁFICA
Seria impossível fazer uma densa revisão historiográfica sobre a chamada “Era Vargas” em um projeto de pesquisa que impõe limites de páginas. Sendo assim, tenho consciência que vou fazer recortes e selecionar apenas as matrizes teóricas de interpretação do Estado Novo, descartando trabalhos que cobrem o período anterior a 1937. Mesmo dentro desse recorte temporal, outras escolhas serão feitas, a exemplo de algumas obras e tantas outras, não menos importantes, não serão mencionadas.
As interpretações do populismo, hegemônicas até os anos 1970 , utilizavam o método amplo cujo recorte temporal se iniciava com o movimento de 1930 e terminava com o de 1964. Não levavam em considerações as especificidades conjunturais, e sim, consideravam esse longo período de trinta anos como uma etapa do capitalismo brasileiro. Evidentemente, que são abordagens perfeitamente coerentes com as questões políticas e epistemológicas correntes na época de sua elaboração, e, vistas no seu tempo histórico, cumpriram importante papel, mesmo que hoje sejam criticadas.
Posterior à década de 1970, na já citada crise paradigmática, o populismo passa a ser reinterpretado: os historiadores passam a fazer recortes mais específicos e passam também a privilegiar as experiências dos sujeitos em vez do determinismo das estruturas. Nesse particular, questionam a idéia de passividade do sujeito e buscam compreender os interesses das massas em apoiarem o governo Vargas, por exemplo, dentro de sua consciência e não como massa de manipulação e manobra.
Sobre o Estado Novo, especificamente, a bibliografia está agrupada em três linhas: a) estudos que procuram mostrar a política trabalhista como uma conquista da classe trabalhadora (Evaristo Moraes); b) estudos que defendem a tese da hegemonia e da autonomia do Estado na condução do processo histórico (Leôncio Martins Rodrigues); e, c) estudos que relacionam o processo de forma direta aos interesses do capital industrial (Luiz Werneck Vianna).
Com a renovação na Historiografia Brasileira, o período passou a ser visto por outros ângulos, com os quais pretendo dialogar na minha pesquisa. A História Política relacionada à Cultural tem rendido novos e inéditos trabalhos. O livro Estado novo: ideologia e poder (1982), organizado pelos pesquisadores do CPDOC; A Invenção do trabalhismo, de Ângela de Castro Gomes; O Anti-semitismo na era Vargas: fantasmas de uma geração, de Maria Luiza Tucci Carneiro; Felinto Muller: memória e mito, de Stella Maria Floresani Jorge; Música, nação e modernidade: os anos 20 e 30, de Arnaldo Daraya Contier; Tecendo o amanhã: a história do Brasil no ensino secundário: programas e livros didáticos- 1931-1945, de Luiz Reznik; são alguns exemplos de trabalhos voltados para a área da cultura política.
Sobre a Paraíba, existem vários trabalhos que discutem o período que proponho estudar. Alguns deles, não recortam, necessariamente, no Estado Novo, mas focam no objeto Revolução de 1930, que considero pertinente para compreender o Estado que emerge, sobretudo, a partir do golpe de 1937.
Uma primeira matriz de interpretação é oficial, maniqueísta e apologética do presidente João Pessoa. (VIDAL, 1978; ALMEIDA, 1978; FREIRE, 1944;)
A historiografia perrepista publicou apenas um livro, que circulou de forma clandestina e, também, maniqueísta, constrói outra versão para os incidentes de 1930, desqualificando o presidente João Pessoa e defendendo o advogado João Dantas.
Mesmo elaborando versões diferentes sobre a conjuntura de 1930 na Paraíba, essas duas linhas de interpretações acima citadas tinham em comum o fato de serem uma escrita da história fundamentada na escola metódica e fora do âmbito acadêmico.
Oriundos dos programas de Pós-Graduação dos anos 1970, outros trabalhos viriam estudar o mesmo tema. Caminha (1978) estudou numa perspectiva sociológica do mandonismo local, a Guerra de Princesa e o conflito entre José Pereira e João Pessoa; Mello (1984) estudou a Revolução de 1930 na Paraíba como uma revolução para dentro do Estado, defendendo que o governo João Pessoa antecipou na Paraíba o centralismo estatal que viria com a Era Vargas; Gurjão (1994), numa perspectiva marxista, demonstra que não houve revolução na Paraíba, e sim, uma troca de oligarquias, após o movimento de 1930; Santana (1999) centrou seu estudo no argemirismo que coincide com o Estado Novo, para a autora, foi com esse governo que houve a reacomodação oligárquica na Paraíba; Guedes (2007), diferentemente da anterior, aponta que essa reacomodação foi realizada já em 1932, durante a gestão de Antenor Navarro, porém, por cima, quando José Américo ocupava o cargo de Ministro de Viação e Obras Públicas de Vargas; Aires (2006), numa perspectiva da cultura política, estudou os conflitos de memórias e simbologias entre os perrepistas e liberais na Paraíba; Costa (2007) estudou as Noelistas, grupo de mulheres da ordem, ligadas à Igreja Católica e ao Estado Novo, que lutavam contra as idéias feministas e em favor de uma identidade feminina tradicional.
Dos trabalhos citados, apenas quatro cobrem o período do Estado Novo: os de Gurjão, Santana, Aires e Costa. No entanto, o que pretendo com o presente projeto, difere dos dois primeiros, que fizeram a discussão do Estado numa perspectiva marxista; difere dos dois últimos no sentido de que, não obstante tenham sido fundamentados numa perspectiva da cultura política, o de Aires foca o conflito de memórias em torno de 1930 e a construção da mitificação de João Pessoa, ao passo que o de Costa discute a questão de gênero no contexto dos anos que cobrem o Estado Novo. Minha intenção é pesquisar os governos Argemiro de Figueiredo e Rui Carneiro, interventores paraibanos nomeados por Vargas, pelo prisma da “teatrocracia” .

3- JUSTIFICATIVA

A maioria dos estudos sobre o Estado Novo, sobretudo, os que tratam da questão da cultura, tem focado outras linguagens, a exemplo do teatro, patrimônio cultural, cinema e música, e suas apropriações pelo governo Vargas na busca da definição da identidade nacional. (BOMENY, 2001).
Na historiografia paraibana, os estudos sobre o período têm centrado a discussão numa perspectiva marxista ou da “sociologia do mandonismo”, conforme demonstro na análise historiográfica desse projeto.
Posto isso, entendo que o projeto que proponho, vem suprir uma lacuna na historiografia paraibana , ao procurar trabalhar a Paraíba no contexto do Estado Novo numa outra perspectiva teórico-metodológica, a da cultura política.

4- OBJETIVOS
4.1- OBJETIVO GERAL
• Investigar os significados e práticas culturais contidas nas festas cívicas no decorrer do Estado Novo na Paraíba, buscando compreender as produções e recepções da pedagogia da festa, bem como os conflitos inerentes a ela.

4.2- OBJETIVOS ESPECÍFICOS
• Analisar as estratégias de política cultural do Estado Novo, relacionando os contextos local e nacional;
• Observar as intencionalidades do Estado paraibano no tocante à constituição da teatralização do poder, expressa nas festas cívicas e suas práticas materiais e simbólicas;
• Investigar as representações e práticas culturais constituintes da política do Departamento de Estatística e Publicidade (DEP) paraibano, relacionadas às festas cívicas no contexto do Estado Novo;
• Compreender a recepção do Estado Espetáculo por parte das “classes populares”.

5- DISCUSSÃO TEÓRICO-METODOLÓGICA
O trabalho que proponho desenvolver, a partir desse projeto, caminha na linha da nova história política, de uma redescoberta da esfera do poder à luz dos debates interdisciplinares com a antropologia.
A História política tradicional, heroicizante, évenementialle (factualista), cujas raízes podem ser encontradas em Tucídides, vai ser consolidada no século XIX, com o alemão Leopold Von Ranke e as pretensões de criar a História científica “livre” da influência da filosofia. Há, portanto, uma continuidade no tocante à história política tradicional, desde a Grécia antiga, passando pelo medievo cristocêntrico e adentrando pela modernidade humanista cientificista, dos antiquários aos iluministas. Isso, claro, levando em consideração os contextos diversos, porém, ressaltando o ponto comum de considerar a História como as ações de alguns “grandes” sujeitos individuais responsáveis pelo processo linear e evolutivo do caminhar da humanidade.
No próprio século XIX, a crítica a esse paradigma historiográfico já está em evidência, não obstante ser exceção. Vainfas (1997) chama a atenção para o fato de que nem tudo que se produziu no século XIX, foi história política tradicional. No próprio campo historiográfico, já figuravam exceções, a exemplo de Gibbon, Fustel de Coulanges, Huizinga, Jacob Burckhardt e Michelet. Este, por exemplo, já utilizava a fonte oral. No campo das outras ciências humanas, a crítica não ficava por menos, na sociologia (Durkheim), na antropologia (Lévy-Bruhl), na economia (Simiand) e na geografia (Paul Vidal de La Blache).
Com a Escola dos Annales, a crítica à história política tradicional é evidente. No entanto, concordo com Burke (1997) e com Rémond (1996) quando afirmam que a 1ª e a 2ª geração, mesmo dando ênfase às estruturas sócio-econômicas e mentais, não abandonaram a história política. Houve uma ressignificação do político. O que seria o clássico Os Reis Taumaturgos, de Bloch, senão, um trabalho de antropologia política? Braudel, a figura emblemática do estruturalismo na História, não abandonou as batalhas e ações políticas e militares, mesmo colocando-as na terceira parte da sua tese sobre o Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo na época de Felipe II.
No final da década de 1960, no contexto da crise paradigmática e da eclosão de diversos movimentos sociais, assim como da aposentadoria de Braudel, a história política toma dimensão no debate acadêmico. Não há um retorno à história política, como assinala Rémond(1996) e Julliard(1988), pois a discussão não é a mesma do século XIX, e sim, uma renovação a partir do simbólico, do cultural, em interface com a antropologia. (BALANDIER, 1982).
O objeto Festa tem despertado interesse pela historiografia internacional e brasileira, sobretudo, a partir da década de 1970, no contexto da crise dos paradigmas. Há uma variedade de festas que podem ser estudadas, entre essas, as de caráter religioso, profano (carnaval, por exemplo) e as festas cívicas (também profanas, às vezes revestidas de caráter sagrado). Não vou me deter nas várias tipologias, e sim, focar nas festas cívicas, uma vez que são nelas que o objeto desse projeto se enquadra.
É o que podemos perceber com os trabalhos de Ozouf e Vovelle, sobre as comemorações da Revolução Francesa, e de Hobsbawm, que também estudou os “Ecos da Marselhesa”. No Brasil, Souza(1999) estudou as festas cívicas no contexto do Império; Bittencourt(2006) se deteve em analisar as festas cívicas nos primeiros anos da República, focando-as nas comemorações realizadas nas escolas paulistas; Oliveira (1989) investigou as intencionalidades do calendário cívico republicano; Del Priore (2000), por sua vez, as estudou no contexto da América Portuguesa; Albuquerque (2002) analisou as comemorações da Independência na Bahia; Moura (1995) estudou as comemorações do bandeirismo paulista no contexto da São Paulo dos anos 1950; Lyra (1995) concentrou suas atenções nas memória da Independência e suas representações simbólicas.
Diante do exposto, gostaria de situar, no plano teórico-metodológico, o presente projeto de pesquisa. Pretendo trabalhar com os conceitos de imaginário , cultura política e teatralização do poder (Balandier). Não menos importante será a leitura de Chartier para fundamentar as investigações sobre representações, apropriações e práticas culturais nas festas cívicas que objetivo pesquisar. Imaginário, representações, práticas e teatrocracia, serão conceitos importantes para pensar o objeto de estudo que proponho. Entretanto, mesmo reconhecendo que os aspectos subjetivos são igualmente relevantes para os estudos do poder, da política e do Estado, não comungo com as matrizes nominalistas que dão ênfase à linguagem como auto-referente. Na relação entre imaginário e “real”, nem trabalho na perspectiva da imagem-mímese, como reflexo absoluto da realidade, nem da imagem-ficção, da mimese - nenhuma. Desse modo, procuro seguir nos caminhos de uma história cultural que, embora heterogênea, não abre mão do campo representacional. Como assinala Pesavento (1995, p. 24):
O imaginário é, pois, representação, evocação, simulação, sentido e significado, jogos de espelhos onde o´verdadeiro` e o aparente se mesclam, estranha composição onde a metade visível evoca qualquer coisa de ausente e difícil de perceber. Perseguí-lo como objeto de estudo é desvendar um segredo, é buscar significado oculto, encontrar a chave para desfazer a representação do ser e parecer.

Outro interlocutor fundamental para nossa pesquisa é Alcir Lenharo. Sua obra, Sacralização da Política, em muito nos ajudará a acompanhar a simbologia do Estado Novo no Brasil, sobretudo, o apelo feito ao imaginário cristão para legitimar um regime autoritário e construir um mito político. Certamente, a leitura dessa obra será fundamental para pensarmos a questão paraibana no contexto nacional.
Em suma: a fundamentação desse trabalho é a Nova História Política, tomando como característica comum a interface política-cultura.

6- DEFINIÇÃO DAS FONTES E METODOLOGIA

Inicialmente, irei fazer as leituras da historiografia brasileira e paraibana sobre o Estado Novo, a fim de compreender as diversas contribuições trazidas pela a escrita da História sobre o objeto em questão. Essa leitura historiográfica será igualmente relevante para a minha compreensão do contexto da macro história, no qual situarei o micro recorte espacial que escolhi para essa pesquisa. Isso porque entendo que fazer um trabalho de História Cultural, fragmentado, sem conexões entre o simbólico e o material, é bastante problemático, para não dizer reducionista e culturalista.
No que tange às fontes históricas, meu objetivo é fazer um cruzamento das mesmas, utilizando a documentação oficial, como legislação, discursos, jornais, iconografias.
Os jornais A União, órgão oficial e A Imprensa, ligado à Igreja Católica, faziam cobertura das festas cívicas, trazendo atos administrativos, programações, iconografias, discursos, que possibilitarão o estudo da simbologia e das práticas culturais contidas nas festas cívicas paraibanas no contexto do Estado Novo. No jornal O Clarin, ideologicamente comprometido com as “classes populares”, pretendo compreender a recepção que os “de baixo” faziam dessas festas cívicas. Quanto à documentação do Departamento de Estatística e Propaganda (DEP), órgão que antecedeu a criação do DIP, no plano nacional, sua relevância para essa proposta de trabalho reside no fato de que a mesma trará as diretrizes traçadas pelos intelectuais que pensavam e realizavam as festividades cívicas no decorrer do Estado Novo na Paraíba.
Quanto aos métodos de pesquisa, tenho em mente caminhar na linha do paradigma indiciário, procurando indícios, pistas, sinais que conduzam a evidências das práticas, recepções e resistências d (n)as festas cívicas paraibanas no contexto do Estado Novo.
Como vou utilizar imagens visuais como documentação, pretendo percorrer os caminhos metodológicos da iconografia, embora tenha que ir além do método do historiador da arte Erwim Panofsky. Segundo Burke (2004, p.52), os historiadores culturais precisam da iconografia, porém, devem ir além dela. É preciso que apliquem a iconologia de forma mais sistemática, o que pode incluir o uso da psicanálise, do estruturalismo ou da semiótica e da História Social da Arte.
Nesse projeto, pretendo enveredar por este último caminho metodológico. Consoante Burke (2004), a História Social da Arte é um verdadeiro guarda-chuva que abrange uma variedade de enfoques. Diferentemente de Panofsky, os historiadores sociais da arte, a exemplo de Frederick Antal e Arnold Hauser, se preocupavam em analisar as imagens no seu contexto social, incluindo o político, cultural, material, etc.
Entre os nomes mais emblemáticos, podemos citar: a) Arnold Hauser (que via a arte como o reflexo da sociedade); b) Francis Haskell (que concentrou suas atenções no pequeno mundo da arte e na relação entre artistas e patrocinadores); c) Linda Nochlin e Griseuda Pollock (teóricas feministas que estudavam as relações entre a arte e a questão de gênero); e d) David Freedberg e Michael Fried (teóricos da recepção, que estudam como as sociedades e culturas diversas recebem e constroem significados diferentes para a mesma obra de arte).


Entre as fontes a serem pesquisadas, incluem-se:

ARQUIVO DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DA PARAÍBA (IHGP)

• Jornal A União (1937-1945);
• Conferência intitulada O Dia da Pátria, proferida por José Batista de Mello na Revista nº 9 do IHGP (1937).

ARQUIVO MAURÍLIO DE ALMEIDA

• Jornal O Clarim (1939-1940);


ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DA PARAÍBA: FONTES IMPRESSAS OFICIAIS
• Atualidade Paraibana. João Pessoa: Departamento Estadual de Estatística (Serviço de Divulgação e Propaganda), Imprensa Oficial, 1938;
• A Paraíba em continência ao Estado Novo, à República e à Bandeira. João Pessoa: Departamento Estadual de Estatística (Serviço de Divulgação e Propaganda), Imprensa Oficial, 1940;
• Coleção de Leis e Decretos do Governo da Paraíba- 1930-1941. João Pessoa: Imprensa Oficial, 1943.
• 5 Anos de Governo (Reportagens das festas do quinto aniversário do Governo Argemiro de Figueiredo e uma síntese das suas impressionantes realizações sociais e econômicas), João Pessoa: Departamento Estadual de Estatística (Serviço de Divulgação e Propaganda), Imprensa Oficial, 1940;

ARQUIVO DA CÚRIA METROPOLITANA
• Jornal A Imprensa (1937-1945).

ARQUIVO DO NÚCLEO DE DOCUMENTAÇÃO E INFORMAÇÃO DE HISTÓRIA REGIONAL (NIDIHR)- UFPB
• Iconografia (fotografias das décadas de 1930/40)

ARQUIVO DO CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO DE HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA DA FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS (CPDOC/FGV)
• Iconografia (Fotografias das décadas de 1930/1940)



8- CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por fim, fica demonstrada a necessidade de pesquisas inseridas na perspectiva da cultura política paraibana, buscando, assim, elucidar outros mecanismos de controle social e legitimação de poder, também muito eficazes na visão dos diversos governos e regimes políticos.
Com essa proposta de pesquisa, estarei contribuindo para a renovação da História política paraibana, muito embora esteja estudando um recorte específico, mas espero demonstrar a relevância da perspectiva da cultura política para pensarmos outros recortes temporais.

9- OBRAS CITADAS E BIBLIOGRAFIA BÁSICA PARA O PROJETO

ALMEIDA, José Américo de. O Ano do Nego: Memórias. Rio de Janeiro: Gráfica Record Editora, 1968.

ALBUQUERQUE, Wlamira R. de. Patriotas, Festeiros, Devotos: As comemorações da Independência na Bahia (1888-1923). In: CUNHA, Maria Clementina Pereira. Carnavais e outras F(r)estas (Org.). Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2002.

BALANDIER, George. O Poder em cena. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1982.

BITTENCOURT, Circe. As “Tradições Nacionais” e o Ritual das Festas Cívicas. In:
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BOMENY, Helena. (Org.) Constelação Capanema: Intelectuais e Políticas. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2001.

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INVENTANDO TRADIÇÕES, CONSTRUINDO MEMORIAS: A “REVOLUÇÃO DE 1930” NA PARAIBA

O mito, segundo Eliade (apud Castelo Branco, 2005, p. 28), tem como principal função “[...] revelar os modos exemplares de todos os ritos e atividades humanas significativas: tanto a alimentação ou o casamento, quanto o trabalho, a educação, a arte ou a sabedoria”. Acrescenta Castelo Branco (2005, p. 28) que

[...] ele revela modelos significativos numa dada sociedade, que devem ser seguidos pelos mais jovens, para manterem as tradições passadas, repetindo rituais e práticas que seus antepassados fizeram. Daí uma necessidade de uma sacralização da realidade para garantir a repetição da atmosfera mítica, sobrenatural, em que os mitos são revelados em cerimônias sagradas ou em rituais de passagem. É através do poder dos ritos que os mitos se repetem, reatualizando-se, tornando-se vivos novamente e dinâmicos.

Esse aporte conceitual é de valor considerável para a reflexão sobre a construção do mito João Pessoa, cuja discussão iremos focar nesse artigo. Desde o dia do assassinato do, então, presidente paraibano, foi se criando uma atmosfera mítica em torno de seu nome, santificando-o, heroicizando-o e cultuando a sua “martirização”. No imaginário coletivo, ele “obrava milagres”, seu espírito era bastante invocado para resolver questões terrenas. Os vitoriosos de 1930 o tomam como exemplo a ser seguido e passam para a sociedade a mesma missão: seguir os passos do “grande paraibano”, “bravo” e “resistente”.
A tese central dessa discussão consiste na compreensão de que o processo de construção da memória mitificada de João Pessoa, e na invenção de tradições apelando para seu nome, atendeu a objetivos distintos, porém, convergentes: a) legitimar o golpe de Estado tramado por uma corrente da Aliança Liberal, ocorrido em outubro de 1930; e b) legitimar o Estado que se estrutura a partir do referido golpe. Nossas investigações históricas percorrem uma temporalidade convencional, a chamada Era Vargas (1930-1945), o que não impede, em outros momentos, de problematizarmos a permanência de uma cultura histórica heroicizante para além desse recorte temporal, esbarrando na contemporaneidade.
Nesse artigo, porém, investigaremos a institucionalização de alguns lugares de memória do presidente João Pessoa, criados no calor dos acontecimentos, entre o assassinato (26 de julho de 1930) e a tomada do poder (24 de outubro de 1930).

DE SANTO A HERÓI: JOÃO PESSOA NO MEIO DAS RUAS, PRAÇAS E AVENIDAS

Conforme definição de Carvalho (1990, p. 55):

Heróis são símbolos poderosos, encarnações de idéias e aspirações, pontos de referência, fulcros de identificação coletiva. São, por isso, instrumentos eficazes para atingir a cabeça e o coração dos cidadãos a serviço da legitimação de regimes políticos.

Para o mesmo autor, não há regime político que não cultue seus heróis e não possua seu panteão cívico. Em alguns casos, os heróis surgem quase que espontaneamente, a partir das lutas que antecederam a nova ordem. Em outros, de menor profundidade popular, foi necessário esforço na escolha e na promoção do herói. A ausência da participação popular na implantação do regime republicano leva à compensação por meio da mobilização simbólica (CARVALHO, 1990, p.55).
Se, no caso da proclamação da República brasileira, diante da “bestialização” da população, foi preciso a tal mobilização simbólica para “formar almas” em prol do regime político, no caso da “revolução” de 1930, não se pode dizer que ocorreu da mesma forma. Houve a participação de segmentos médios urbanos em mobilizações de rua por parte da Aliança Liberal; houve a presença de segmentos que, entre a morte de João Pessoa e a tomada do poder, estiveram nas ruas, ora chorando o “mártir”, ora vibrando com seu herói. Concomitantemente, uma corrente da Aliança Liberal articulava o golpe de Estado, iniciado na madrugada de 03 de outubro, na Paraíba, que culminou com a deposição do presidente da República, Washington Luís, em 24 seguinte, no Rio de Janeiro. Mesmo assim, foi necessária a mobilização simbólica.
A construção histórico-cultural do “herói” João Pessoa se insere na primeira tipologia enunciada por Carvalho (1990, p. 55), surge no interior das lutas que antecederam o novo regime, cultuado pela população. Ao contrário das batalhas disputando o papel de “herói” da proclamação, João Pessoa não encontrou concorrente no tocante a ser “herói” da “revolução”. A Aliança Liberal na Paraíba, vitoriosa em 1930, digladiou, até internamente, do ponto de vista político e ideológico, mas nenhuma de suas alas abriu mão do nome de João Pessoa como o herói de 1930.
A partir daquele ano, seu nome passou a denominar ruas, praças e avenidas espalhadas pelas capitais do Brasil, transcendendo os limites geopolíticos da Paraíba, considerado a dimensão nacional do símbolo-mor da Aliança Liberal.
O historiador Robert Levine aponta na direção da pouquíssima popularidade da figura de Vargas em 1930. Segundo o brasilianista:

Fora do Rio Grande do Sul, praticamente, ninguém sabia nada sobre Getúlio Vargas, quando de sua passagem pelo ministério de Washington Luís ou pelo Palácio do governo em Porto Alegre. As fotografias nos jornais (e cinejornais, num preto e branco granulado), apresentaram aos brasileiros durante a campanha presidencial de 1930 e, depois, já como chefe de estado. O rádio contribuiu para aumentar muito o contato de Vargas com o público (LEVINE, 2001, p. 141).

Nesse particular, concordamos com Levine. Vargas não era tão conhecido em 1930 como seria depois, sua popularidade e mitificação serão construídos no decorrer dos dezenove anos (somando os seus dois governos) à frente do governo brasileiro, sendo o suicídio e a carta-testamento elementos simbólicos que iriam coroar seu “heroísmo”, com o rádio exercendo papel de destaque no culto a sua personalidade. Mesmo assim, nas eleições de março de 1930, ele protagonizava o grupo oposicionista ao oficialismo cateteano. No entanto, a partir de julho seguinte, os papéis se invertem e, morto, João Pessoa passa a representar o verdadeiro mito em nome do qual se fará a tomada do poder, decretando, assim, o fim da “República Velha”.
Destarte, a criação de lugares de memória em torno dos quais girava o nome do ex-presidente paraibano, não se fez apenas no plano estadual, mas também na esfera nacional. Se as missas realmente conduzirem os espíritos a Deus, a julgar pela quantidade das celebradas pelos quatro cantos do Brasil, João Pessoa, certamente, deve ter chegado direto ao céu sem conhecer sequer o purgatório.
Segundo depoimento de Manuel Dantas Vilar Filho, o palanque político da Aliança Liberal foi remontado para nele subir o cadáver de João Pessoa. Vejamos como se expressa a fala de um sujeito politicamente marginalizado pela oficialidade:

Pois bem, aí com a morte dele (João Pessoa) serviu de destaque, veja que detalhe curioso. Ele era o presidente do Estado no exercício do poder, foi assassinado, o cadáver foi trazido pra capital depois foi posto num caixão, num navio, foram até o Rio Grande do Sul em cada porto descia faziam um comício retomando o movimento da chamada Aliança Liberal que tinha sido derrotada na eleição de março, tá certo? Inauguravam uma rua com o nome dele, tá certo? Quer dizer, a grande dimensão dele foi gerar um cadáver. 8 (Grifos nossos).

Ocorre certo exagero no depoimento quando o entrevistado afirma que o cadáver de João Pessoa foi até o estado do Rio Grande do Sul. De fato, foi até o Rio de Janeiro, sendo sepultado no cemitério São João Batista. Entretanto, pelo que noticiou o Jornal A União, procede a afirmativa de que o navio Rodrigues Alves, que conduzia o corpo, ancorava em alguns portos para que o morto fosse cultuado pela população, como em Recife, Maceió e Salvador.
Na capital federal, não seria diferente. Pelo contrário, lá estava o Catete, que se encontrava com um inquilino perrepista com os dias contados. Destarte, ter sido sepultado no Rio de Janeiro não atendeu apenas a razões de âmbito pessoal, qual seja, o fato de lá residirem sua esposa e filhos. Também teria atendido a questões políticas, com a “peregrinação do corpo” por vários estados, parando para descanso eterno justamente na cidade centro do poder do país. O choro da população não se resumiu ao estado da Paraíba, era pertinente fazer “vasos de lágrimas” acompanharem o navio com o corpo de João Pessoa, arregimentando apoio para a tomada do Catete das mãos de Washington Luís. Na Praça Mauá, Pinheiro Chagas falou em nome do estado de Minas Gerais, enquanto o tribuno e político Maurício Lacerda assim se expressou, representando o estado do Rio de Janeiro:

Cidadãos! Mirai este esquife! Morrei por este homem que por vós morreu. Ajoelhem-se e deixem passar o cadáver deste Cristo do civismo! E ergam-se, depois, para ajustar contas com os Judas que o traíram. (Grifos nossos).

Podemos perceber, nitidamente, uma tentativa de associar o mártir cívico ao mártir religioso, remontando, de certo modo, à cristianização da memória medieval do Ocidente. A idéia maniqueísta está bastante explícita nesse discurso, onde João Pessoa é associado a Jesus Cristo, o “bem”, o “salvador”, o que doou sua vida em prol da humanidade; e nesse caso, Judas seriam os “perrepistas”, os “traidores”, o “mal”, aqueles em quem se deveriam jogar pedras, como reza a tradição.
Para José Murilo de Carvalho, (1990, p.67), o apelo à tradição cristã do povo é uma forma de santificar “heróis” cívicos e legitimar o regime político vigente. Se os republicanos brasileiros, após a proclamação, escolheram Tiradentes como seu “herói”, figurado como Cristo, os aliancistas buscarão em João Pessoa algo semelhante. A propósito, merece citarmos uma nota divulgada pela Liga Nacionalista do estado do Pará, celebrando a martirização do presidente paraibano:

Na hora em que a usina da Pará Electric apitar, a Hóstia Sagrada está sendo levantada na Cathedral, e em cada coração uma prece a Deus pedirá á paz na Parahyba. A cidade paralizará o seu movimento por três minutos e todos os brasileiros, de pé, prestarão uma homenagem cívica á memória do inolvidável João Pessoa e a terra cuja autonomia elle defendeu até a última gota de sangue (Jornal A União, 6 set. 1930 - grifos nossos).

Analisando os fatores que influenciaram na escolha de Tiradentes como o “herói” da República Brasileira, Carvalho (1990, p.67), elencando seus concorrentes, tais como Frei Caneca, conclui que este “morreu como herói desafiador, quase arrogante, num ritual de fuzilamento”, enquanto Tiradentes teve um cerimonial de enforcamento comparado à crucificação de Cristo e morreu passivamente, traído por Joaquim Silvério dos Reis, o “Judas” da Inconfidência Mineira.
Com João Pessoa, ocorre essa analogia. Ele passa a ser o âmago da Aliança Liberal, pela forma como morreu, “defendendo” a autonomia da Paraíba “até a última gota de sangue”, conforme podemos notar na leitura do documento acima citado.
A historiografia oficial, a reboque de Ademar Vidal, construiu a idéia de um complô organizado por João Dantas, Augusto Moreira Caldas, João Suassuna e outros, para assassinar o presidente da Paraíba. Este terá sido vítima dessa “traição”, tendo sido pego de surpresa na Confeitaria Glória, morrendo sem ter direito de defesa. A partir de então, seu corpo passou a ser cortejado e sua alma passou a ser santificada. Além das missas, a que nos reportamos em momento anterior, outras formas de religiosidade popular foram praticadas. O Jornal A União descreve as romarias organizadas com destino à Praça João Pessoa, nas quais as pessoas rezavam em torno de um retrato do presidente morto, ali instalado. Ademar Vidal ressalta que, durante o velório, “os romeiros trazem flores e levam as que já murcharam. Fazem promessas. Relíquias que servem talvez para remédio. João Pessoa santificado pelo seu povo”. (VIDAL, 1978, p. 313).
Observando o arquivo pessoal de João Pessoa, sob a guarda do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, podemos perceber a santificação do ex-presidente, construída em forma de cartas, mensagens e poemas, como o que vemos a seguir:

Um bandido covarde fez um santo
E muita gente vai se admirar,
Porém o Caso de João Pessoa
Bem analysado é fácil de explicar.
(...)
João Pessoa é hoje para mim um santo
A quem eu não me canso de adorar,
Já não precizo freqüentar igrejas
Por que tenho aqui este santo e seu altar.

O Christo foi justo e sacrificou-se
Para salvar a humanidade inteira,
João Pessôa morreu com Christo
Pela salvação da raça brasileira.

Hoje imploro a Deus a sua piedade
Para nossa Pátria que é muito bôa,
Não essa Pátria de Seu Zé Pereira
E sim a Pátria de João Pessôa.

Para provar quanto adoro a este santo
Deixo escripto nestes versos a minha fé,
Desculpe-me a falta de grammática
Pois eu não sou literato, e sim, chauffeur.

(Arquivo Privado de João Pessoa, IHGP).


Em consonância com o que afirma Le Goff, (1992, p. 446), ao analisar a memória medieval do Ocidente, se a memória cristã se manifesta essencialmente na comemoração de Jesus, anualmente, na liturgia que o comemora do Advento ao Pentecostes, através dos momentos essenciais do Natal, da Quaresma, da Páscoa e da Ascensão, e cotidianamente, na celebração eucarística, a um nível mais “popular”, cristalizou-se, sobretudo, nos santos e nos mortos. Os mártires eram testemunhos. Depois da morte, cristalizava-se em torno da sua recordação a memória dos cristãos.
Entendemos como importante esse referencial para pensarmos a construção das noções de martirização e santificação de João Pessoa, mediante práticas de religiosidade popular. E, contrariando o ditado que diz que “santo de casa não obra milagre” o presidente da Paraíba “obrou milagre” na imaginação popular, como veremos:

Um milagre de João Pessoa
Esteve hontem em nosso Gabinete redaccional a velhinha Maria Lyra que nos contou o seguinte:
Que dois filhos seus incorporaram-se ás tropas revolucionárias; um no 22 B.C. actualmente na Bahia, o outro no 8 B.C. de Porto Alegre.
De alguns dias para cá as notícias escassearam e os boatos começaram a chegar-lhe aos ouvidos de que os dois rapazes já não viviam.
Contrariada e ferida no âmago coração de mãe, ella fizera piedosas prece diante da effigie sagrada do immortal João Pessôa, para que lhe chegasse notícias dos seus filhos.
Dois dias depois ella recebia carta e telegramma dos dois entes queridos.
(Jornal Correio da Manhã, 8 nov. 1930)


Morto tragicamente e “traído” por antigos aliados, João Pessoa “operava pelo sacrifício, no domínio místico, a salvação que não pudera operar no domínio cívico”. (CARVALHO, 1990, p.68) Vivo, não conseguiu vencer as eleições presidenciais de março de 1930; além disso, teve a bancada federal da Paraíba depurada pelo Congresso Nacional e não conseguiu vencer os rebelados de Princesa Isabel. Morto, porém, conseguiu realizar dois dos três objetivos, pois, como frisamos desde o início, sua memória mitificada seria elaborada pela corrente “revolucionária” da Aliança Liberal para rearticular os planos do golpe de Estado. Na madrugada de 3 para 4 de outubro, tem início, na Paraíba, o movimento que, no dia 24 daquele mês, depôs Washington Luiz e impediu a posse de Júlio Prestes. Cumpria-se o primeiro objetivo. Antes disso, Princesa já havia sido ocupada mediante intervenção federal, pondo fim à guerra que, há mais de seis meses, assolava o estado. José Pereira derrotado, cumpria-se o segundo objetivo. Só não se realizou o terceiro porque Getúlio Vargas governou de forma autoritária, com o Congresso Nacional fechado durante a maior parte de sua longa gestão; dessa maneira, a bancada federal paraibana eleita, da Aliança Liberal, não retornou ao Congresso.
Parece haver consenso na historiografia paraibana no tocante à influência da morte de João Pessoa para a concretização do movimento de outubro de 1930. Parece-nos interessante citar uma observação feita pelo governador perrepista de Pernambuco, Estácio Coimbra, na qual afirmava, após a morte de João Pessoa, que “a Aliança Liberal agora tem um mártir” (VIDAL, 1978, p. 178).
Em nossa concepção, é procedente essa afirmação. A morte de João Pessoa tem um peso importante no que concerne à efervescência e à reorganização da Aliança Liberal, de tal maneira que a construção de sua memória será a munição fundamental para a retomada dos planos golpistas costurados a nível nacional, com ponta-pé inicial na Paraíba. Portanto, João Pessoa, naquele momento, seria o maior símbolo nacional da Aliança Liberal e, a partir de seu nome, seriam inventadas tradições e construídos lugares de memória.
Em pesquisas que realizamos no site das Empresas de Correios e Telégrafos, podemos nos dar conta da dimensão do mito João Pessoa pelo Brasil afora. Das vinte e seis capitais brasileiras, apenas em sete delas não encontramos uma rua com o nome do ex-presidente da Paraíba.
As páginas do Jornal A União estão repletas de telegramas comunicando ao governo da Paraíba ou à redação do próprio periódico a substituição de nomes de ruas, praças, avenidas e povoados pelo nome de João Pessoa. Ainda em setembro do mesmo ano, pelo decreto 1804, do intendente do Conselho Municipal de Pelotas, no Rio Grande do Sul, João Crespo, a antiga Rua da Liberdade passava à denominação de Rua João Pessoa. Interessante chamarmos atenção para o fato de ser, o Rio Grande do Sul, um dos estados que compunham a Aliança Liberal.
No entanto, a maioria de atos semelhantes ou parecidos só ocorreria após a tomada do poder pelos aliancistas, em outubro de 1930, certamente por sofrerem antes, restrições perrepistas. Daí em diante, podemos enumerar alguns, dentre eles: a) o novo prefeito de Recife decreta que a principal rua da cidade terá a denominação de João Pessoa; b) o prefeito Luiz Coelho Alves da Silva, de Rio Branco (PE), muda o nome da Rua da Estação para Praça Presidente João Pessoa; c) em Quebrângulo (PE), o prefeito José Vieira coloca o nome de João Pessoa na rua da Matriz; d) em Queimadas (PE), o prefeito denomina uma rua de João Pessoa; e) em Palmas, o nome de João Pessoa vai se instalar em uma praça; f) no município de Luiz Gomes, o prefeito Fernando Sobrinho transforma o nome da povoação de Malta em João Pessoa; g) o prefeito do Rio de Janeiro, Adolpho Bergamini, coloca o nome de João Pessoa na Praça do Governador; h) em Novo Exu (PE), o prefeito Manuel Ayres muda o nome da antiga Rua Renato Barroso para Rua João Pessoa; i) em Manaus(AM), a Praça Gonçalves Ledo passa a ser denominada Praça João Pessoa; j) em Guarapava (PR), a principal praça da cidade passa a denominar-se Praça João Pessoa; e l) em Vitória(ES), o prefeito Asdrúbal Soares coloca o nome de João Pessoa em uma praça da cidade.
Caso emblemático ocorreu em Fortaleza. A Avenida João Pessoa era, anteriormente, uma estrada de barro batido, até 1929, quando Washinghton Luis mandou construí-la em concreto. Ao término dos serviços, a rua passou à denominação de Avenida Washington Luiz. Conforme assinala Miguel Ângelo de Azevedo:

(...) logo veio a Revolução de 1930 e o povo arrancou as placas e substituiu por João Pessoa, que tinha sido assassinado naquele ano e embora o crime fosse por razões pessoais a ocasião o transformou em crime político para favorecer os antagonistas da candidatura do governo (AZEVEDO, 1991).

Como podemos observar, o nome de João Pessoa morto passa, realmente, a ser o símbolo da Aliança Liberal no plano nacional. Mais do que batizar uma rua, em Fortaleza, com seu nome, é particularmente importante notarmos a substituição operacionalizada. Washington Luiz desaparecia do nome da rua como também desaparecera do Catete, não para João Pessoa, como na rua, mas para Getúlio Vargas, que assume o governo por circunstâncias de um golpe civil-militar desfechado à sombra da memória de um cadáver: João Pessoa.
Se, de norte a sul do país, a memória de João Pessoa cristalizava-se em ruas, praças, avenidas e povoados, na Paraíba não seria diferente. O Jornal A União divulgaria, à época, várias medidas tomadas pelos poderes municipais para atos semelhantes. No município sertanejo de Pombal, a Câmara Municipal aprovou a proposta do conselheiro Joaquim Josias de Souza, a qual determinava a mudança do nome da Rua da Aurora para Praça Dr. João Pessoa. No mesmo projeto de lei, havia a abertura de crédito de 200$00 destinado à aquisição de uma placa de bronze que deveria ser colocada no local.
Mesmo após a tomada do poder pela Aliança Liberal, a construção da memória de João Pessoa, confundindo-se com a memória da “Revolução de 1930”, seria exaustivamente elaborada. Em nosso entendimento, entre o assassinato do presidente e a eclosão do movimento de 1930, ocorreu um primeiro movimento dessa memória, com vistas a preparar a legitimação do golpe. Em seguida, ocorreu um segundo movimento, em que a apropriação da memória objetivou a legitimação do Estado e do grupo no poder que, então, vai se configurando e se vale da memória como recurso nesse sentido.
Em 26 de outubro de 1930, dois dias após a destituição de Washington Luis o prefeito de Bananeiras, José Antonio Ferreira Rocha, sancionou a lei nº 44, determinando a mudança do nome da Avenida Patronato para Avenida João Pessoa.
Caso semelhante é o do município de Princesa Isabel que, chefiado pelo coronel José Pereira, sustentou uma guerra de seis meses contra o governo João Pessoa, encerrada após a morte desse último. No entanto, em novembro de 1930, quando José Pereira não mais comandava o município, o novo prefeito assinou um decreto mudando o nome da Avenida Arrojado Lisboa para Avenida João Pessoa. Assim sendo, o ex-presidente paraibano adentrava às ruas de Princesa de forma simbólica, já que não o conseguira militarmente, quando enviou a Polícia Militar em investidas durante a guerra.
Em Santa Luzia do Sabugy, o prefeito Francisco Antonio da Nóbrega assinou o decreto nº 6, determinando a mudança do nome do povoado de Várzea para João Pessoa. Em Pilar, o prefeito Ambrósio Pereira deu o nome de João Pessoa a uma praça da cidade, na qual também ficava exposto o retrato do presidente morto.
No meio das ruas se consolidava uma memória oficial que plantaria sementes na cultura histórica paraibana na longa duração.


REFERÊNCIAS

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Livro de Projetos de Leis e Pareceres (julho a setembro de 1930)

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Arquivo Privado de Adhemar Vidal;
Arquivo Privado de João Pessoa;
Série Produção Intelectual (1910-1940)

ARQUIVO DO INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÌSTICO DO ESTADO DA PARAÍBA (IPHAEP)

Inventário de Bens Móveis e Integrados do IPHAEP.

ARQUIVO MAURÍLIO DE ALMEIDA

Jornal Correio da Manhã (1930-1933)
Jornal A Liberdade (1930)

DEPOIMENTOS ORAIS

INADI TORRES VILAR: agricultor, nascido em 2 de fevereiro de 1927. Entrevista em 23 de janeiro de 2005.

REUZA RIBEIRO DE QUEIROZ: professora primária aposentada, nascida em 5 de outubro de 1923. Entrevista realizada em 6 de fevereiro de 2005.

MAURA TAVARES DE LIMA: professora aposentada, nascida em 5 de agosto de 1937. Entrevista realizada em 22 de outubro de 2005.

MANUEL DANTAS VILAR FILHO: engenheiro civil e fazendeiro no município de Taperoá. Entrevista realizada em 11 de maio de 2006.

EDITE CORDEIRO DE SOUZA: agricultora, residente no município de São João do Cariri. Entrevista concedida em 22 de outubro de 2006.












domingo, 12 de julho de 2009

UNIVERSIDADE ESTADUAL DA PARAÍBA
CENTRO DE EDUCAÇÃO
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA E GEOGRAFIA
CURSO DE HISTÓRIA



GRUPO DE PESQUISA E EXTENSÃO: “DETETIVES DAS HISTÓRIAS DO CARIRI”

COORDENADORES: PROFª MS. MARIA JOSÉ SILVA OLIVEIRA, PROF. ESP. ANSELMO RONSARD, PROF. MS. JOSÉ LUCIANO DE QUEIROZ AIRES E PROF. MS FAUSTINO TEATINO CAVALCANE NETO.

1-OBJETIVO GERAL

A proposta da formação de um grupo de pesquisa e extensão sobre as histórias do Cariri Paraibano, objetiva o engajamento dos alunos de graduação em História da UEPB, tanto no garimpo das fontes históricas dos diversos municípios que, historicamente, compõem essa espacialidade, como também, e, sobretudo, manter diálogos com várias instituições no tocante à políticas públicas presevacionistas. O levantamento da documentação terá por fim a produção de conhecimento histórico sobre os indivíduos e grupos sociais que urdiram tramas históricas em sua multidimensionalidade.

2-JUSTIFICATIVA

Inicialmente precisamos justificar o título. Para tanto, se faz pertinente recorrermos ao historiador Carlo Ginzburg, para quem o historiador se aproxima do detetive tanto na busca pela documentação como na forma de buscar pistas e montar interpretações sobre as tramas históricas. É por ai que precisamos caminhar, como detetives das histórias do Cariri paraibano, procurando as provas e montando os quebra cabeças peculiares ao nosso ofício de historiador.
São várias outras as justificativas para essa proposta de trabalho. Comecemos pela produção historiográfica caririzeira. Não obstante trabalhos de José Leal, Celso Mariz, Tarcísio e Martinho Dinoá, Francisco de Assis Ouriques Soares, Antonio Mariano, Dorgival Terceiro Neto, Luciano Queiroz, Faustino Neto, Georges Gaudêncio, José de Farias Brito, a produção de trabalhos ainda é quantitativamente insignificamente, diante das possibilidades diversas. O que se tem produzido na academia tem ficado trancado na gaveta do pesquisador, sem chance de publicação.
Não menos grave é o descaso da maioria da população local para com a documentação. Autoridades pouco levam a questão a sério. Com exceção da organização do arquivo do Fórum de São João do Cariri, realizada pela UFPB (Campus de Campina Grande- atual UFCG), cujo projeto foi coordenado pela historiadora Socorro Rangel, não se efetivou políticas públicas nesse sentido, bastante louváveis, inclusive. O grupo de pesquisa que propomos fundar, tem em mente salvar a documentação que nos resta, sejam elas oficiais ou particulares, assim como empreender entrevistas com base nas memórias orais da população.
Ademais, a formação do grupo, proporcionará aos estudantes de História da UEPB uma formação de pesquisador, pondo a mão na massa, de onde esperamos saírem inquietos e cheios de perguntas que poderão render futuros e bonitos trabalhos.
Este projeto, inicialmente, será executado com o apoio da UEPB, por via do Núcleo de Documentação e Pesquisa em História (NUDOPH) do Curso de Licenciatura em História e da Pró-Reitoria de Extensão. Outras parcerias serão buscadas no seu decorrer, a exemplo do IHGC (Instituto Histórico e Geográfico do Cariri), Prefeituras Municipais, Ministério Público, Igrejas, escolas, Governo do Estado e Sebrae.

3- FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICO- METODOLÓGICA

Memória e patrimônio cultural são as categorias emblemáticas desse projeto. Por isso, precisamos deixá-las evidentes nesse texto, tendo em vista serem polissêmicas e historicamente significadas e ressignificadas.
Halbwachs é um dos pioneiros a trabalhar com a questão da memória no campo das ciências humanas. Sociólogo durkheiminiano, nos anos 1950, escrevia o livro A Memória Coletiva, defendendo a tese de que as memórias, mesmo as individuais, são sempre memórias dos grupos aos quais o indivíduo se sente pertencer.
No entanto, hoje, os historiadores culturais, a exemplo de Pierre Nora, contestam algumas conclusões da tese de Halbwachs. Em primeiro lugar, a questão da pretensa memória coletiva e homogênea em torno do grupo social. Atualmente, com a crise paradigmática e a complexidade em vez das abordagens dicotômicas e simplificadoras da modernidade, preferimos pensar nas diferenças dentro das diferenças, ou seja, o grupo social, por menor que seja, não é tão homogêneo como pensamos. Se há traços identitários que os una, é bem verdade que há outros que se mostram conflitantes.
Também é alvo de crítica ao pensamento de Halbwachs a questão das longas permanências das memórias, como se fossem estáticas, e ao cientificismo que conferia uma busca pela verdade das memórias. Os historiadores preferem articular o tempo longo com o médio e o curto e trabalhar os conflitos entre memórias, as subjetividades das memórias, suas intenções e desejos de afirmações em detrimento de outras que são relegadas ao esquecimento, como afirma Michael Pollak.
Como bem resume a historiadora Regina Célia Gonçalves:

“(...) a palavra memória denomina tanto: a)o mecanismo de lembrança e esquecimento do tempo vivido pelos indivíduos e pelas sociedades (trata-se de uma dimensão “interior”da memória) quanto b) a existência objetiva da experiência dos grupos, através do tempo, objetividade essa expressa nos monumentos, documentos e relatos da sua história.” (P.16).

Com relação ao conceito de patrimônio, não comungamos com a utilização do termo patrimônio histórico-artístico ou arquitetônico, pensado pela intelectualidade no contexto do Estado Novo. Isso porque, a classificação é excludente, privilegiando apenas o velho, o tangível e que tenham pertencido as elites nacionais, ou seja, aos “grandes vultos” a memória histórica brasileira. Como assinala Ricardo Oriá, preferimos o conceito de patrimônio cultural, pela sua abrangência e democratização. Se tudo que os seres humanos participam é cultura, tudo é patrimônio: o velho e o novo, o tangível e intangível e o que tenha pertencido a todas as classe e grupo sociais. Patrimônio cultural engloba tanto o histórico como o ecológico, o artístico e o científico. É formado por um tripé indissociável que engloba as dimensões natural ou ecológica, histórico-artístico e documental. Meio ambiente, conjuntos urbanos, e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico, as obras, os objetos, os documentos, as edificações, as criações científicas, artísticas e tecnológicas, as formas de expressão e os modos de criar, fazer e viver, etc. É preciso que pensemos em uma memória plural e não nacional e unívoca. Ter direito à memória é uma questão de cidadania e de identidades.


4-OS PARTICIPANTES

Poderão participar do grupo, alunos e professores que se interessam em pesquisar sobre os aspectos históricos dos municípios do Cariri Paraibano.

5-METODOLOGIA

• No primeiro mês, será dada uma oficina sobre Arquivologia.
• Haverá um encontro quinzenal no decorrer de cada mês, onde serão discutidos textos teórico-metodológicos. Serão discutidos a nova história cultural, nova história social, nova história política, história das mulheres, micro-história, história local, antropologia histórica, história da cultura material, a história dos marginais, a história do imaginário. Esses debates fundamentarão, teórico-metodologicamente, os alunos nas decisões sobre objetos de estudos, dos quais poderão sair das fontes que estarão manuseando;
• Os alunos farão o trabalho com a catalogação das fontes, sob orientação de profissionais da área de Arquivologia;
• O objetivo final é publicar um livro a partir das pesquisas desenvolvidas e organizar arquivos públicos ou particulares.

6- CRONOGRAMA DE EXECUÇÃO

2008

MÊS ATIVIDADE

JUNHO Na segunda semana de pesquisa em História iremos trabalhar a produção historiográfica sobre os municípios do Cariri e apresentar este projeto em um mini curso.
JULHO Realizações de reuniões com alunos interessados na formação do grupo de pesquisa e extensão. Período para contactar o Presidente do IHGC, para formar parceria com a UEPB, por via do NUDOPH e da Pró-Reitoria de Extensão.
AGOSTO Realização de dois encontros para discussão de textos teórico-metodológicos. Reunião com o Presidente do IHGC, a coordenadora do NUDOPH, a coordenadora do curso de História da UEPB e a Pró-Reitora de Extensão da UEPB para discutirmos as viabilidades do projeto.
SETEMBRO Realização de dois encontros para discussão de textos teórico-metodológicos. Participação cultural na programação da festa de Nossa Senhora dos Milagres de São João do Cariri.
OUTUBRO Realização de dois encontros para discussão de textos teórico-metodológicos. Oficina de Arquivologia.
NOVEMBRO Realização de dois encontros para discussão de textos teórico-metodológicos. Oficina de Paleografia.

DEZEMBRO Realização de dois encontros para discussão de textos teórico-metodológicos. Seminário sobre a produção historiográfica local do Cariri.



2009


• Durante o ano de 2009, será desenvolvida a parte de catalogação e organização dos arquivos, assim como organizado e publicado um livro contendo fragmentos históricos do Cariri.




7- REFERÊNCIAS


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TERCEIRO NETO, Dorgival. Taperoá: Crônicas para sua história. João Pessoa: Unipê Editora, 2002.


ANEXOS

1- LEVANTAMENTO DA DOCUMENTAÇÃO

SÃO JOÃO DO CARIRI

CARTÓRIO DE 1º OFÍCIO

NOTAS- 8 LIVROS

• 1886-1889
• 1892-1899
• 1899-1905
• 1905-1907
• 1911-1914
• 1914-1917
• 1949-1967

CARTÓRIO DO 2º OFÍCIO

NOTAS- 14 LIVROS

• 1823-1827
• 1830-1832
• 1832-1836
• 1836-1837
• 1837-1839
• 1843-1848
• 18481854
• 1855-1862
• 1865-1872
• 1879-1947
• 1906-1936
• 1915- ...
• 1931- ...
• 1943-1972

PROTOCOLO- 2 LIVROS

• 1946
• 1948-1949

DIVERSOS

• Livro Rol dos Culpados 1865- ...
• Livro de Tutores, de Orphãos 1879-1947
• Indicador Pessoal 1901-1904
• Livro Indicador Real 1902-1905
• Livro de Registro de Testamento 1904-1948
• Livro de Registro de Protesto de Títulos Comerciais 1927-1976
• Livro de Alistamento 1929- ...
• Livro de Audiências Cíveis e Comerciais 1935-1942
• Termo de Posse aos Prefeitos e Vereadores 1935- 1952
• Livro de Registro de Cartas de Guia 1948- ...
• Livro de Registro de Taxas Judiciais 1954-1959

ARROLAMENTOS DE INVENTÁRIOS

ANO INVENTARIANTE INVENTARIADO
1835 Senhorinha Francisca do Nascimento Antonio da Silva Vasconcelos
1825 Luiza Alves Bizerra João Batista de Abreu
1826 Martinho Ribeiro Pimentel Florência Maria da Conceição
1837 Joaquim Ferreira da Silva Sebastiana Gomes da Silva
1833 Ana Felicia do Espirito Loreto Antônio Francisco Bezerra
1843 Feliciano Gomes de Souza Joana Maria
1843 N/C Gabriel José Goveia
1844 N/C Josefa Mamede do Nascimento
1846 José Joaquim da Costa Ramos Tomé Pereira de Castro
1846 Antonio da Costa Ramos João da Costa Brito
1853 Antonia Maria Monteiro Viríssimo josé Rodrigues
1953 Francisco Cordeiro da Cunha Ana Joaquina das Martirias
1854 Gaspar Alves Bezerra Julia Alves Bezerra
1854 Antônio dos Santos Cavalcante Izabel Maria da Purificação
1845 Romana Ferreira de Jesus Adriano José de Santana
1855 N/C Manoel de Farias Castro
1856 N/C Cosme Damião Soares
1856 N/C João Tavares Feitosa
1857 Francisco Ferreira da Costa Francisca Izabel das Neves
1858 João Manoel Domingos Filho Ana Martins de São José
1858 Manoel Rodrigues de Souza José Rodrigues de Souza
1858 João Saraiva de Araujo Tereza Mariá de Jesus
1859 Francisco Gomes de Medeiros Francisco Mendes da Silva
1861 N/C Izabel Francisca de Jesus
1861 Antônio Bizerra do Nascimento Domingas Maria do Esp. Santo
1862 Joaquim Barbosa Côelho Narciza Maria da Conceição
1863 N/C Luis Gomes do Carmo
1863 N/C João Tavares de Oliveira
1864 Inácia Dantas Lazaro Martins de Castro
1864 N/C Ângela Maria do Patrocínio
1864 N/C Inácio de Barros Brandão
1864 N/C Anna Maria
1864 N/C Severina Maria Espírito Santo
1865 Claudina Fausta da Trindade Manoel Soares Brito
1866 Archanja Maria da Conceição Francisco Antônio de Tal (sic)
1866 Florença Maria da Conceição Lourenço Ferreira Ferro
1866 Manoel Severiano Gomes Barretto Joanna Maria do Amor Divino
1867 N/C Manoel de Amorim e Souza
1879 Francisco José Maria Ignácia Maria da Conceição
1879 Francisco Ferreira dos Santos Antônio Barbosa do Nascimento
1879 Joaquim Alves dos Santos João Alves dos Santos
1879 José Leite Ferreira Antonia Maria da Conceição
1880 Francisco Fernandes Oliveira Josephina Tereza de Castro
1880 Matheus de Farias Castro Maria de Tal (sic0
1880 Antônio de Farias Gurjão Firmina Maria da Conceição
1880 Manoel Antônio da costa Rita Maria da Conceição
1881 Manoel Ferreira de Freitas Francisco Ferreira dos Santos
1881 Ricardo Corréia de Sá Ignês Maria do Coração de Jesus
1881 Maria Correia da conceição Domingos Ribeiro Leite
1882 Josefa Maria da conceição Victor Fernandes Modesto
1882 Raymundo Barbosa Maria Miguel Babosa Coelho
1882 Manoel José do Espírito Santo Brígida Maria da Conceição
1882 Balduino Cavalcante de Albuquerque Ana Alexandrina Queiroz
1882 Joaquim Maria da Conceição Francisco Gerõnymo de Brito
1882 Francisca Maria do Espírito Santo Francisco de Barro e Silva
1882 José Maria Gabriel Gabriel Gomes Leitão
1882 José Dias Almeida Pinto Celina Pacheco Leitão
1882 João Manoel de Farias Brasil Felipe Neves de Farias
1883 Pedro Francisco Ferreira Guimarães Maria Francelina de Lima
1883 Justino da Costa Nogueira Pedro Maria Nunes
1883 Josefa Maria da Conceição Manoel da Costa Lima
1883 Izidro José Mariano Manoel José do Espírito Santo
1883 João Francisco Sales Manoel José do Espírito Santo
1883 João Gonçalves de oliveira N/C
1883 Anna Felicia de Queiroga T- Cel. Manoel da Costa Rompeu
1883 Anna Joaquina do Espírito Santo Luiz José Pereira da Cunha
1883 Avelino José Maria de Oliveira Claudino Gomes de Andrade
1883 Cândida Maria das Dores Antônio Felipe de Araújo
1884 Josepha Maria da Conceição AngeloCorreia de Souza
1884 Purcina Emilia do Amor Divino Francisco Soares de Araújo
1884 N/C Luiz Correia de Queiroz
1884 Eduvirges Maria de Jesus José Olavo Ferreira
1884 Salviano José Rogério
Alexandre José Rogério
1885 Caetano Correa de Queiroz Innocencia Maria do Amor Divino
1885 Ignácio da Costa Brito Florentina do Amor Divino
1885 Manoel Ferreira de Freitas Paula Maria do Carmo
1885 Carolina Maria da Purificação Pio de Souza Cavalcante
1885 Maria Joaquina do Espírito Santo Herculano José de Amorim
1886 N/C Vig. José de Souza Magalhães
1886 Joaquim Antõnio oliveira Maria José do Espírito Santo
1886 Caetano Queiros Junior Thereza Aires de Queiros
1886 Antonio Correa de Melo Antonia Maria Monteiro
1886 Antônio Barbosa côelho Manoela umbelina Conceição
1886 Minervino Vilar Carvalho A... Maria da Silvera Villar
1887 Maria Pereira Castilho João de tal (sic)
1888 Manoel Vicente Pereira Inácia Maria da Conceição
1888 José Dantas da Silva Margarida Maria da Conceição
1888 Maria Inguês de Jesus José Claudino dos Santos
1888 Alexandrino Correia Queiroz Umbelina Rosa de Queiroz
1889 José Belarmino de Araujo Agostinha de tal (sic)
1889 Firmiana Correia Lima Firmiana Correia Lima
1889 Firmino José Alves dos Santos Januária A ... Souza Leite
1890 Francisca de Andrade Lima Abelio de Souza Paiva Cavalcante
1890 Clariça de Souza Cavalcante Bevemeta de Souza Cavalcante
1890 Ângela Maria de Jesus Eduardo Gomes de Almeida
1891 Manoel Baptista de Queiroz João Baptista Queiroz
1891 Anna Justina Conceição João Antõnio de Souza
1891 Maria Rita da conceição Severino Evangelista Souza
1892 Alexandrino Souza Romeu Maria Francisca Souza
1893 Umbelina Maria de Jesus Martinho Ribeiro Pimentel
1893 Emiliano Cordeiro de Souza Manoel Joaquim Pereira de Souza
1893 Umbelina Maria de Jesus Martinho Ribeiro Pimentel
1893 Carlota Maria da Conceição João Francisco Régis
1893 Joana Maria da Conceição Manoel Vicente Ferreira
1893 José Souza Lima Maria Pachêco Leitão
1893 Manoel Alves Firmino Antonia Florinda Jesus
1894 Manoel Alympio Farias Maria José da Purificação
1894 N/C Jorge Lopes da Silva
1894 Justino Ferreira Pramade Izidoria Maria da Conceição
1894 Bento Correia Lima Emerenciana C... Lima
1894 Rita Maria da Conceição Francisco nunes da silva
1894 Aureliano de Farias Nogueira Antonio Saraiva Farias Nogueira
1894 Antônio Pacheco de Almeida José Dias de Almeida Pinto
1895 Antônio José Gonçalves Águida Maria da Conceição
N/C Francisca Maria Raimundo Pereira Araujo
1895 Josepha Maria da Conceição Francisco Gomes de Sales
1895 Manoel de Brito Souto Anna Maria (sic) da conceição
1895 Laniel Ferreira de Araujo Francelina Maria da Conceição
1895 Caetano Petronilo Cavalcanti Anna Maria de Jesus
1896 Plínio de Araujo Sales Clementina de Farias Oliveira
1896 Ignacia Maria da Conceição João Correia das Neves
1897 “Os herdeiros” Gonçalo Pereira de Castro
1897 Maria da Cruz de Queiroz Saturnino Correia de Queiroz
1897 José Joaquim de Queiroz Francisca Fausta do Amor Divino
1897 Virginio Gonçalves de Lima Paula Cândida de Jesus
1898 Manoel Fernandes Barbosa Josefa Maria da Conceição
1898 Joaquim Correia de Lima Isabel Maria da Conceição
1900 “Sua Mãe” (sic) D. Vilar de Carvalho
1900 Josefa Maria da Conceição João Thomaz da Silva
1900 Maria Candida de Sá Alexandre Lopes de Almeida
1901 José Borges Gurjão Izabel Maria do Patrocínio
1901 Josefa Maria da Conceição Manoel Luz Bezerra
1901 Joaquina Maria (sic) da Conceição Quirino Eduardo Ferreira
1901 Leonaldo José Ribeiro Cândida Temorna Aragão
1902 Izabel Maria da Conceição Florência José Bezerra
1903 Braziliano de Farias Maciel Sebastiana de Tal (sic)
1903 Antonia Maria (sic) de Andrade Antonio Francisco
1903 Cosma Maria (sic ) da Conceição Caetana Maria da Conceição Queiroz
1904 Joselino Villar Carvalho Anísio A... Villar Carvalho
1904 Antonio José Maria (sic) Maracajá Salomão Maracajá
1904 Damião José da Silva Eduvirges Maria da Conceição
1904 Alexandrino Correia de Queiroz Maria Flora do Amor Divino
1904 Joaquim Limeira Aquino Leonardo Correia de Queiroz
1904 Ana Joaquina Aires de Lima Joaquim Martins F... Castro
1904 José Amâncio Maracajá Maria J... Freire Maracajá
1904 José Lins de Albuquerque Joaquim Lins Albuquerque
1905 Pedro C... de Almeida Costa N/C
1905 Emiliano Cordeiro Souza Manoel José Maria
1905 Pedro Monteiro Leite Francisco José Caldeira
1905 Martiniano Pacheco de Assis Ignacia Ferreira de Assis
1905 Manoel Henrique Freitas Antonio Teixeira Castro
1905 Elias E... Costa Ramos Zeferino Ribeiro Leite
1905 Sebastiana Maria (sic) Rodrigues Manoel Ferreira Freitas
1905 Maximiano de tal (sic) Joaquim Gomes de Tal (sic)
1905 Bernardino Paiva Coutinho Antonio Paiva Coutinho
1905 José da Costa Oliveira Maria Julia Ramos
1905 Antonio Nunes Araujo Pedro Acyoli Fiúba
1905 João Babtista Oliveira Maria do Céu Oliveira
1905 Joaquim Ferreira Campos Vicente Ferreira Campos
1905 Rita Ribeiro Amaro Alves Ribeiro
1905 Generino Queiroz Ana Maria Mewrces
1905 Clementino Pacheco de Assis Donatila L... Andrade
1905 Herminio Alves Almeida Maria de Almeida
1905 José Alexandre Fernandes Josepha Maria da Conceição
1906 Manuel Francisco Bezerra Luiz José de França
1906 Vicente Ferreira de Melo Francisco José Cenaco
1906 Marcos José de Sales João Evangelista Apostolo
1906 João E... Milagres Junior João Evangelista Milagres
1906 Maria Joaquina da Conceição Joaquim Correia Lemos
1906 Luiz Farias Oliveira Izabel Maria (sic) Gurjão
1906 Rafael Pereira Marciel Marcionila Farias Castro
1906 Pedro Henrique Farias Salviano Henrique Oliveira
1906 Saturnino Ferreira mello Justiniano Ferreira Promade
1907 Francisca Bezerra Queiroz Santino Farias Castro
1907 Felix Maria B... Brandão Anna Aurora da Anunciação
1907 “Herdeiros” (sic) Justino de Freitas Cavalcante
1907 Francisca Ferreira Castro Francisco Fernandes Oliveira
1907 Silvino Gomes de Souza Lino José de Lipa
1907 Maria José do Rego Farias José Correia das Neves
1907 Mariano Almeida Pires Bento de Almeida
1907 José Firmino Amorim Maria Francisca Lima Santos
1907 Ernerico Maciel Fonseca Francisca Mateus
1907 Ananias Alves da Silva Manoela Joaquina de Jesus
1907 Francisca Bezerra Queiroz Felippe José Fartias
1907 Severino Antonio Souza Joana Maria da Conceição
1907 Antonio Gomes Francelina Maria da Conceição
1907 Adeodato A... Feitosa Donata Maria Conceição
1907 João Lins Albuquerque Maria Francisca Macedo
1907 N/C Maria de Casesa
1907 Martiniano F... Queiroz Felippe de Farias Castro
1907 Felix de Farias Castro Maria N... Ca= (sic) Bandeira
1907 José Honório Filho José G... de Moura
1908 Marcismila Maria da Conceição Clementino L... Castro
1908 Ernerico Maciel Fonseca Euthacia Moura Francisca
1908 Apollenário José Santos José Francisco Santos
1908 Antônio Luiz Bezerra Josefa Maria Conceição
1908 Balbuino Ferreira Lima Antonio Ferreira Lima
1908 João de Deus Brandão Benvinda Por Deus ao Mundo
1908 Francisco Florencio Freitas Antonio B... Coelho
1908 Firmino Alves dos Santos Manoel Alves de Almeida
1908 José Clarindo Costa Benicia Maria da Conceição
1908 Rita Maria Conceição Avelino José Maria
1908 Emidio José Gonçalves Ricardo Manoel da Cruz
1909 Izabel de Farias Oliveira João de Farias Oliveira
1909 José Limeira Aquino Joaquim Limeira de Aquino
1909 Antônio Tavares Queiroz Firma Maria de Jesus
1909 José Maria de Andrade Maria Manoela da Conceição
1909 Virgínio José Mello Antonia Maria da Conceição
1909 Antonio José Julião N/C
1909 Joaquim Clemente de Souza Maria Joaquina da Conceição
1909 José Cavalcante de Alburquerque Balduino Cavalcante Albuquerque
1909 Manoel Rodrigues de Moura Januária Maria Espírito Santo
1909 Manoel Ribeiro de Queiroz Rozalina Maria Espírito Santo
1909 João Bezerra Evangelista Aguida Maria de Jesus
1909 Rio José Maria Paulino Francisco Pereira
1909 Adelino Ribeiro de Queiroz Generino Correia de Queiroz
1909 Major José Correia de Queiroz Maria da Conceição L... Queiroz
1909 Martiniano de Assis Pacheco Antonia Pacheco
1910 José Cassemiro Souto Maria Martinha
1910 Izabel Pacheco de Brito João Maria de Brito
1910 Framblim A... Paiva Ana Felicia de Queiroz
1910 Cap. Antônio Faria Gurjão Joaquim Gomes Meira
1910 Belmira Ramos Elias E... (sic) Costa Ramos
1910 Joaquim Ferreira Quintanha Francelina Maria da Conceição
1910 Manoel Fernandes Barbosa José Fernandes da Silva
1910 Pedro Venâncio de Gouveia Anna Theresa de Jesus
1910 Manoel Francisco da Silva Filho Manoel F... de Sá e Maria F... de A... D...(sic)
1910 Asbagos Ramos e Major Filomeno Manoel e Padre Tito Lins
1910 Manoel Virginio da Costa Virginio José de Melo
1910 Pedro Ferreira Dias Luiza Maria da Conceição
1910 João Alves de Andrade Jerônima Maria da Conceição





2-LIVROS PUBLICADOS SOBRE AS HISTÓRIAS DO CARIRI

• ANTONIO PEREIRA DE ALMEIDA- Velhos Troncos de Cabaceiras e o povoamento do Vale do Taperoá;
• PADRE JORGE RIETVELD E MARICÉLIO JANUÁRIO DA SILVA- Centenário
• de Camalaú;
• ANTONIO LEITE BARBOSA- A História do Desterro;
• JOSÉ RAFAEL DE MENEZES- Patriarcas de Alagoa do Monteiro;
• PEDRO NUNES FILHO- Guerreiro Togado: Fatos Históricos de Alagoa do Monteiro;
• TARCÍSIO DINOÁ MEDEIROS- Freguesia do Cariri de Fora e Ramificações da Genealogia do Cariri;
• JOSÉ LEAL- Julgado do Cariri de Fora e Valores Humanos do Cariri Velho; Reencontro da Vila; Vale do Travessia;
• INOCÊNCIO NÓBREGA- Malhada das Areias Brancas;
• DORGIVAL TERCEIRO NETO- Taperoá: Crônicas para sua História;
• JOSÉ LUCIANO DE QUEIROZ AIRES- De Pombas a Parari: Três séculos de História;
• JOSÉ LUCIANO DE QUEIROZ AIRES E LÁZARO ALVES DE FARIAS- Estaca Zero de Ontem, Assunção de Hoje;
• JOSÉ LUCIANO DE QUEIROZ AIRES E FAUSTINO TEATINO CAVALCANTE NETO- História da Banda Filarmônica “Maestro João Ferreira de Souza”, Os filhos de Zé Ribeiro no comando do PMDB de Taperoá e José Ribeiro: a história de um líder;
• FRANCISCO DE ASSIS OURIQUES SOARES- Boa Vista de Santa Rosa: de fazenda à municipalidade;
• ANTONIO MARIANO SOBRINHO- Rio do Camará;
• CELSO MARIZ- Atravéz do Sertão,
• JOSÉ DE FARIAS BRITO- Pedaços da História de São João do Cariri.